Pat na Amazônia

28.3.05


Dos tempos no Tempo

Escrevo algumas linhas sobre a tese O tempo arqueológico, de Marcos Pereira Magalhães. Saiu publicada em livro pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em 1993.
O núcleo central da tese se resume no que o autor chama Cultura Neotropical. Ela consiste na afirmação, baseada nas pesquisas de Niéde Guidon e outros, de que havia habitantes na Amazônia durante a virada do Pleistoceno ("era das glaciações" e domínio do fogo) para o Holoceno. Esses nossos ancestrais souberam viver em distintos ecossistemas - savanas e florestas - e até formar ilhas florestais deliberadamente dentro dos campos de mato rasteiro. Nessa época, entre 6500 e 4000 anos atrás, as florestas úmidas distribuídas em torno do Equador se expandiram graças à estabilização do clima no planeta.

Passaram-se os milênios e o que fazemos com a Cultura Neotropical? Jogamos no lixo cada vez que pisamos no acelerador e liberamos monóxido de carbono, cada vez que consumimos só pelo prazer de ter, cada vez que esquecemos a íntima ligação entre Natureza - a Floresta Neotropical - e Cultura. Cultura de um povo que Darcy Ribeiro já qualificou de "povo novo" se referindo ao brasileiro mestiçado de branco- índio-negro. Expandindo o foco antropológico de quinhentos anos atrás para cinco mil anos atrás, ou trintecinco mil anos atrás como sustenta a grande senhora Guidon, os protobrasileiros são um povo muito, mas muito antigo.

Hoje à tarde, no curso Narrativas da Contemporaneidade, se falava de migrações. Pois há 30 mil anos ou mais, existem provas disto, o Homo sapiens girava este planeta a pé e de canoa, com alguns instrumentos de paus e pedras nas mãos robustas e calejadas. Muita ação, muita intuição, e por que não dizer? muita racionalidade também.
Milênios atrás, e mesmo um século atrás, dar a volta ao mundo era coisa para grandes aventureiros. Hoje atravessamos o mundo em duas dúzias de horas, ensardinhados numa classe econômica ou aboletados na executiva de um MD-11, pterodátilo de aço com seus circuitos eletrônicos e mecanismos de alta precisão. E qual foi o resultado de tanto progresso, de tanta tecnologia avançada? Bilhões com fome, com sede, sem casa, sem direitos humanos, lutando para sobreviver. Outros milhões que sobrevivem porque têm pelo menos o básico, batalham para viver com dignidade num planeta onde "liberdade" individual seduz mais do que Fraternidade Universal.

Avançamos? Recuamos? Não vou arriscar respostas, que a sabedoria do Tempo o diga. Mas a história da humanidade, como os planetas deste sistema solar, anda em espiral e não em linha reta. Neste terceiro milênio da chamada Era Cristã; quarto, quinto, sexto ou sétimo milênio pós-Holoceno, em que avançamos? No que regredimos?


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22.3.05


Hoje é o dia mundial da água.

Em Brasília se discute a gestão dos recursos hídricos no subsolo, talvez a polêmica transposição do Velho Chico, batem-se palmas para esta que constitui toda a vida. Na BBC News as chamadas vão para uma epidemia esquisita em Angola e um "novo estudo" dizendo que o chocolate escuro faz bem para doenças como a pressão alta. Muito oportuno divulgar essa pesquisa financiada sabe-se lá por que lobby às vésperas da Páscoa. Ninguém na BBC fala da água, talvez só os discursos de Brasília - porque quem tem sede se cala pra economizar saliva.
Aprendemos na escola que a Terra é o Planeta Água, que 3/4 do nosso organismo é água. Mais recentemente se ensina que ela fica escassa e rara e será motivo das próximas guerras. Péssimo pensar o Brasil como o Iraque do futuro, hem? Em mim, apesar de tudo, habita a esperança. Gostaria de pensar que todos percebessem que a água, como princípio da vida, deve ser acessível a todos e jamais desperdiçada. Não posso me dar ao luxo de enxaguar duas vezes a mesma roupa porque tenho o "privilégio" de ser abastecida com a água de um manancial cada vez mais esgotado, onde pedaços pretos chegam na máquina, tornando a limpeza de lençóis e camisas brancas sempre um catar de resquícios sujos...

Em Parintins, meu pai viu a imensidão aquática na confluência do Andirá com o Paraná do Ramos e suspirou: "como dizem que pode faltar água no Brasil?" Eis a questão: o amazônida vive cercado de rios, paranás, igarapés e lagos e muitas vezes falta a pura de beber. Aprende então a tirar o líquido da raiz da embaúba - estratégia de sobrevivência básica na terra firme. Outras árvores dão águas mais preciosas: isso apenas o mateiro experiente sabe.

Queremos viver além de sobreviver.

Um amigo meu da adolescência, o Marcelo Duílio do Nascimento, dizia: "a gente só dá valor à água quando tem sede". Era uma metáfora pra outras coisas, que agora deve ser levada ao pé da letra. Quando tomar o próximo gole de mineral, agradeça por essa bênção e faça a sua parte. Quem desperdiça pode matar alguém de sede. Pois prometo regular o banho! Abrir o chuveiro mais de 3 minutos, nem pensar!


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19.3.05


Minhas receitas naturebas:
1. arroz no abacaxi.
Atendo a pedido da minha amiga Ju e recorro a um expediente que já elevou deveras a audiência deste blog. Agora é uma versão atual e mais leve do arroz thai servido no abacaxi, cuja receita publiquei nos primórdios deste blog - quase dois anos atrás!
Variação de 19/03: Arroz no abacaxi com pinhões
Tome uma fruta sem coroa e corte no sentido longitudinal, ou seja, "de comprido". Retire a polpa deixando um dedinho de borda. Use os pedaços para fazer um suco. Se vc gosta de doce com salgado, não faça o suco, reserve os pedaços e o suco que se forma naturalmente com a operação para acrescentar ao arroz.
Doure em uma frigideira uma cebola, dois dentinhos de alho. Acrescente 13 pinhões bem picadinhos - ou mais, se vc tiver dedos e paciência, ou aquele instrumento dos paranaenses pra cortar pinhão! (Vale ainda castanha de caju, do pará ou amêndoa). Refogue o arroz integral/cateto, lindo, com aqueles grãozinhos marrom-escuros em meio aos outros, dourados. Cozinhe em bastante água, temperada com um masala - tempero indiano onde as especiarias são transformadas em pó - de canela, gengibre, cravo e pouca pimenta. Um pouquinho de açafrão, pimenta síria e pimenta rosa reforçam ainda mais o sabor. Sal, só o mínimo - recomendo, para os amigos do NaCl, até duas colheres de chá para quatro pessoas. Mais que isso intoxica. Quando o arroz estiver bem macio, acomode nas metades do abacaxi e sirva. Se você quiser o prato como "principal", coloque frango desfiado ou proteína de soja em cubos, se for vegetariano radical. Eu acompanhei com um salmão marinado em limões siciliano e taiti, gengibre, shoyu e maracujá que ficou ótimo, imodéstia à parte. Elogio do querido Jeff: "vai cozinhar bem na China!" Não, no Brasil tá bom mesmo.
Enfim, estou feliz... apesar da separação. Em momentos assim, nada como juntar velhos-novos amigos para uma tarde com falares e sabores tão agradáveis.
Se este post fizer sucesso, publico logo a receita 2: camarões flambados no caju, receita do Manacá que já reproduzi para amigos, com sucesso. Ou o macarrão indiano do Goa, restaurante em Oranienburgerstrasse (Berlin-Mitte), que virou especialidade da casa. Facílimo de fazer. Dêem seus votos!!!

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11.3.05


Heute ist mein Geburtstag, was soll ich denn schreiben?

Comecei bem: Parque do Ibirapuera, 5200 m, encontro casual com a bióloga que dá aula de paisagismo e a jornalista freelancer Gorete sei lá do quê, colaboradora da Joana Baracuhy na A&C. Aprendemos a diferença entre ipê branco, rosa e roxo (roxo à esquerda, rosa à direita ali no T da República do Líbano). Conhecemos a espatódia, ao que parece, a flor preferida de Bóris Casoy (ugh! que vergonha, não da espatódia, desse cara metido a besta!). Uma aluna diferenciou Ficus benjamin de Ficus spp, sei lá que espécie, não importa. Importa é o Ficus indica, o Salix alba e o outro Salix sp que se debruça sobre o lago. Como o nome do gênero bem indica, em Salix encontramos ácido acetil salicílico, excelente para dores de cabeça - no caso do chorão - e para ansiedade ou irritações mil - no caso do salgueiro, Salix alba. Ah, e a mim, vocês que acaso leram o estranho post Mulungu e o mangue preto, sabem que muito interessa aquela Bombacácea de flores pentâmeras rosa pousada defronte a vista do Monumento às Bandeiras do Brecheret, o Ginásio, a Assembléia e o skyline do espigão.
Ah, São Paulo, São Paulo, até quando? Junho se Deus quiser vou bumbar. E aprender, e perguntar, e ouvir, e ler, e balançar na rede, e comer tucunaré e costela de tambaqui. Bodó assado não, dispenso.
Meu melhor presente de aniversário, já sabem, foi aos 30. Nadar com seis botos é imbatível. Et après... mein Leben ist total anders now. Die fetten Jahre sind vorbei, my friends, e não tô nem aí com a Hora do Brasil. Meus rumos são outros and today is my day. Hoy es el dia del martirio de los españoles, hace hoy un año y la BBC dice que los españoles hacen 5 minutos de silencio. Yo hago 50 minutos de piano, 50 de camiñada; pues que eso va a significar en 1 000 anos, si aun hay la Tierra?


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1.3.05


Tempos atrás colei um trecho do Madredeus que fez algum sucesso (pelo menos me rendeu a visita de uma poética blogueira adolescente, a Tha...). Agora vai música inteira, letra divina do Pedro Ayres Magalhães:

Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Porventura está perdido
No presente temor
Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior
Quando avistei ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar

Sim, eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar
Quando avistei ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar
Quando avistei ao longe o Mar
Sem querer, deixei-me ali ficar.

Acalanto de água, de mágoa desaguada, porto de esperança nascido da névoa feita ela mesma de água. Canção pisciana, vai ver por isso, tanto me agradou. É de esperança melancólica, estranha, mas vai ao encontro da filosofia do asana do Guerreiro citada posts abaixo. Nem lutar, nem fugir, apenas deixar-se ficar. Quem espera sempre alcança...


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