Pat na Amazônia

26.2.05


Mulungu e o mangue preto

Há tempos falei do Mulungu, fiz até poesia pra ele. Um dia de março de 2003 me ensinou o engenheiro florestal Maximiliano Roncoletta: árvore da família das Bombacáceas, tronco macio, flores pentâmeras, sementes higrófilas e aerodinâmicas. Parente da paineira, que solta suas últimas corolas coroando a chegada do meu aniversário. A paineira da curva da estrada de Tatuí pra Sorocaba, logo após a linha do trem, morreu. Era muito velha já e ninguém plantou outra no lugar. Talvez eu deva fazer isso em nome da lembrança do que fui. O diagnóstico do Max tá correto: na aparência mulungu, Bombacácea. Mas descubro a essência de mim feito mangue doce caixeta mangue branco ciriúba mangue brabo abaneiro mangue da praia Clusia fluminensis mangue seco lamacento vermelho preto. Tá no dicionário: "Rhizophora mangle forma densas matas nos pântanos salobros das costas tropicais e se caracteriza por altas raízes-escora; tem flores amareladas e madeira dura avermelhada, pesada, que serve para dormentes, tacos, lenha etc., sua casca é adstringente tanífera e tintória".
Aí temos coisa em comum entre mulungu Bombacácea e mangue Rizoforácea: a casca amargosa. Bile purificadora na pele vegetal.
No ventre da lama salobra onde ecoa o mangue beat que agora ouço, raízes aéreas trombam o chão pastoso e sugam cloreto de sódio em suas veias xilemas e floemas. Circulam informações da lama ao caos. Excesso de tempestades cerebrais. Sobra sódio, falta potássio e cálcio. Terra podre. Ibirapuera. Madeira podre. Bote um mangue no Ibirapuera e terá problemas sinápticos. Sorte que todas as árvores produzem oxigênio no dia - mas à noite, à noite são más como todos nós e devolvem tudo em gás carbônico. Em São Paulo, bem observou um carteiro nos 450 anos, "terra de gente boa, gente movida a gás carbônico". Aqui mangues improváveis e mulungus esquecidos se dissolvem na sombra das últimas paineiras floridas, à guarda do lago de Burle Marx olhando o Monumento às Bandeiras. Quem é que puxa e quem é que empurra ali naquela escultura de Brecheret? Andei observando cada semblante e parece que tem um no meio se matando, músculos tesos, cabeça pra trás, pescoço esticado e tireóide mirando o céu. Outros, se fazem força, não demonstram.

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Meu amigo doctor juris Leonardo Martins manda a seguinte mensagem direto do inverno berlinense sobre o post que escrevi sobre Die Erziehungsberechtigte e está logo abaixo. Tomei a liberdade de publicar suas observações precisas e muito acuradas:
Muito interessante sua interpretação etimológica e paralelo entre educar e erziehen. Allerdings: Berechtigte significa nada mais que legitimado, ter o direito subjetivo de e para fazer algo, no caso educar, ou seja, sobretudo os pais. No contexto judicial significa quem responde em geral pelos filhos, antigamente no Brasil ´pátrio poder´. Ou seja, trata-se de um direito/dever de alguém em relação a menores de idade.
Falou e disse o professor de Direito Constitucional, que vive sabiamente num penden Brasil-Alemanha (agora nem tanto sabiamente porque o moço pegou menos dez em Berlim!). Detalhe: ele tem apenas 33 anos.
Quando eu crescer, já falei pra ele, quero ser assim. E o moço fica sem graça!?


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25.2.05


Some people never change

qm não viu Edukators - Os Educadores, ou melhor no original Die Erziehungsberechtigte, queira ver um dia. Para nós que ingressamos na carreira acadêmica é um bálsamo e uma ferida ao mesmo tempo. Em tempo: Erziehungsberechtigte acrescenta ao latino ed-ducare, conduzir para fora, o plus "Berechtigte" que eu traduzo livremente por endireitar, aprumar, ajustar ou focar. O radical Recht vcs sabem significa direita, justo, certo, Direito (Germânico evidentemente). Por isso deve ser que o S-Bahn que vai pra Berlim Oriental tem quase todas as saídas pela esquerda. "Austieg links, austieg links" martela a voz metálica de la mesma manera que tenemos "Mind the gap" in London o "Marchez à gauche, tenez votre droite" nas plaquettes das escadas rolantes de Paris. Todos, avisos muito sabidos.
Pra vcs, namasté, paz, e o insight do asana Guerreiro: not even flight nor fight, stay put. Às vezes, ficar quieto e se disfarçar de outro bicho é a melhor solução. Quando a presa vira as costas a gente dá o bote - e acerta.


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17.2.05


Meu amigo Chico, do virtual Bar do Chico (vejam endereço aí na barra de links), vem com uma intrigante questão sobre o ano lunar dos chineses. Não só eles, vários povos - judeus, muçulmanos e outros - medem a passagem do tempo pelas luas, como a gestação e a menstruação das fêmeas todas. Isso eu já deixei lá no comment do Bar do Chico.
O q não disse foi q recomendo a ótima reportagem do Renato Modernell na revista Terra (acho que tem no site) sobre o tempo. Lá ele conta como se formaram os calendários solar, lunar e lunissolar - povos nômades, agrícolas e "mistos" ou civilizações "avançadas" como chamam os conservadores que não compreendem que cultura não se compara.
O ano bissexto, a gente aprendeu ou devia ter aprendido na aula de história, foi invenção de um papa (Constantino?) no fim da Idade Antiga. Invenção pra "consertar" ou ficticiamente normatizar o movimento da órbita terrestre em torno do Sol. E depois vieram Galileu e Copérnico pra alterar nossa visão de mundo. Deo gratias!
E agora uns físicos malucos falam que o tempo vai se acelerar e comprimir tanto que em 2014 - ou seja, daqui a pouco! - vamos virar sei lá o quê, pó de estrela ou sabe Deus que ser. Que todos os deuses me livrem! Quero viver muito e bem.
Quanto à combinação mencionada pelo Chico e que tanto o estimulou - doze anos, cinco elementos, água, terra, fogo, ar, madeira) - Chico, é muito simples: o ciclo de 60 anos corresponde a expectativa média de vida dos chineses na época em que esse calendário foi criado. Isso que é sabedoria oriental. Tá na hora da gente aprender sim, com
China Índia e Japão, não tanto com a Coréia, como quer Veja: e ainda bota na capa a pintura da revolução francesa! é o samba do crioulo disléxico. cd meu amigo jg? foi compor samba pra Portela e sair de pierrô com sua colombina em vez de cuidar da edição da revista? ah, não, isso é coisa da "arte".... que viaja bem na maionese dos signos, sem nenhuma responsabilidade ética, técnica e social. Só vale a estética e a venda do produto. chega que essa tpm tá braba. se não, vou xingar deus e o mundo e isso não dá certo. vamos ficar todos em harmonia. love, peace&harmony, sabiamente pediu Morrissey já nos velhos e não perdidos, muito menos trash 80´s.


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4.2.05


Guten morgen an alle. Good morning to everybody.
Ich wunsche uns alle, I wish this wonderful thing to everyone in the world:
FRIEDE - PEACE - PACE - PAZ - SALEM - SHALOM - SALAM.
É só isso o que pede o mundo enquanto a música da Terra gira 24 horas em seu eixo, 365 dias em torno do Sol, sempre para o alto e avante em direção à estrela Vega. This is the glory of the age of Aquarius.
Vamos nos preparar para o fim dos tempos, diz a minha ex-diarista, que se foi de volta para a Bahia, meio a contragosto, deixando uma filha adulta na indústria têxtil de Sorocaba, levando o filho mais novo, tudo porque o marido não se adaptou na Grande São Paulo. Acontece. Ana Taís, que cito no post abaixo, é gauchíssima e estranhou o calor dos ares pernambucanos - apesar de ter se embevecido com o nosso calor interno, esse realmente cativante, com toda a mais orgulhosa imodéstia que eu posso ter (e Deus me perdoe pelo pecadilho).
Migrações, migrações, somos aves migratórias, ou baleias migratórias, sob o disfarce de Homo sapiens, que como bem observa Edgar Morin, somos sapiens, demens, ludens, faber. Os tais três cérebros... vejam posts abaixo...
Só há uma solução para o planeta sobreviver e nós nele. Abaixar a entropia, harmonizar o sistema. Já tem muita gente esperta fazendo isso, por exemplo a Malu "Pazza" Cardinale Baptista, que de pazza não tem nada (é o nome da empresa dela). Conheci a moça no Fórum de Professores de Jornalismo e, na disciplina Teoria da Comunicação, ela desenvolve um projeto de baixa entropia e alta fertilidade intelectual lá pras latitudes 30oS. Chama-se Usina de Idéias e apresenta uma abordagem sistêmica e inclusivista das bibliografias relevantes para os alunos (muitos autores da Usina foram apresentados à Malu pelos próprios pupilos).
Essa geração de trinta anos tá aprontando cada uma! No Rio Grande do Sul e do Norte, na Bahia e na pequena capitania o meu Pernambuco, nas Minas Gerais e claro que em São Paulo também. No resto do Brasil e no mundo pulsam pontos luminosos de sabedoria e possibilidades, aberturas para o novo. É esperar pra ver: aposto numa mudança radical de consciência, e logo. Fiquei ainda mais esperançosa depois da agradabilíssima conversa (foi o diálogo possível, não uma "entrevista") com Helio Mattar. Por isso fiz questão do tête-à-tête, já havia entrevistado o presidente do Akatu pelo telefone e o que ouvi foi um discurso pronto. Não houve diálogo possível naquela ocasião. Hoje, houve um encontro de seres trocando idéias. Saí com muitas lições de lá, e acho que ele gostou de abrir seus minutos preciosos de agenda para uma "jornalista" que conversa em vez de "entrevistar".


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3.2.05


A minha colega Ana Taís Martins Portanova Barros, de Porto Alegre, pergunta o que o blog tem a ver com minha tese.
Puxa vida, difícil resumir em poucas palavras. O blog na verdade é anterior à tese, então ele não tem muito a ver com ela, é mais uma ferramenta de experimentação de linguagem e interações (estas, nulas porque a audiência sumiu depois de um longo silêncio meu. Mas qdo estava em campo recebia muitas visitas, de amigos que queriam saber minhas notícias).
Propus, no projeto de pesquisa para o CNPq, o blog como ferramenta de experimentação e "caderno de campo virtual", mas precisarei assumir que a estratégia de trabalho falhou. Os motivos não apontarei agora porque já estou escrevendo demais.
Agora, um breve sumário da minha tese:

Enquanto os manuais de redação pregam que a objetividade não existe mas que o jornalista deve buscar uma objetividade possível, não há saída epistemológica e pragmática para o dilema de um conhecimento em crise. Os textos murcham e os projetos de autoria falham em detrimento de uma "voz" sem dono, que é a "voz" baça e surda do veículo de comunicação de massa. Fora do mainstream, há autores com suas afinadas e vistosas narrativas de resistência (vide Fernando Resende). Esta tese propõe a transubjetividade como valor a ser seguido pelos jornalistas do novo milênio. A transubjetividade, ou atravessagem dos sujeitos, como venho preferindo chamar, é o caminho a ser buscado pelos narradores do humano ser.
Mas, como fazer uma narrativa transubjetiva? A reportagensaio Na ilha do boi de pano, sobre o festival folclórico de Parintins, vai experimentar as possibilidades do mergulho no si-mesmo (a subjetividade da autora, nordestina-matuta-caipira, neta de um pernambucano que migrou da terra natal para o Amazonas), no outro, sujeito pesquisado (os artistas dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, personagens anônimos do cotidiano, políticos etc.) E aqui então falamos do "objeto", do recorte, e também da relação intersubjetiva, da ação comunicativa entre o eu e o outro. Temos subjetividade, objetividade (tudo em termos relativos, de aproximações) e intersubjetividade. Normatividade, a quarta pretensão de validez segundo Habermas, fica por conta do método de pesquisa empírica, inspirado nas técnicas de reportagensaio (Raul Osorio Vargas), na arte de tecer o presente (Cremilda Medina), na história oral (Ecléa Bosi;José Carlos Sebe), no relato etnológico. A conjunção dessas quatro vertentes - objetividade, subjetividade, intersubjetividade, normatividade - conflui no que chamo TRANSUBJETIVIDADE, ou atravessagem dos sujeitos.
Ficou muito confuso demais?
Agora estou em SP, ouvindo a ema gemer no tronco do juremá, CD do pife muderno que trouxe lá do meu saudoso Recife. Nem quero lembrar que amanhã começa carnaval, pois esses dias serão de muuuuito trabalho!


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2.2.05


Já que o carnaval tá chegando e eu vou trabalhar a ponto de Max Weber sorrir na tumba, haja ética protestante do trabalho! (que espírito de porco tem esse capitalismo, completo eu)... vou colar aqui mais um trecho do relato Na ilha do boi de pano. Quem não tem carnaval vai de bumbá, que é outra coisa completamente diferente. Por favor não confundam os folguedos dionisíacos pré-Quaresma com a quadra junina. São tão díspares quanto o verão e o inverno. Só que eu disse que o festival de Parintins parece e não parece com o carnaval do Rio e o editor da Viagem & Turismo ficou na metáfora batida, que tanto irrita os parintinenses, de chamar o bumbá de carnaval amazônico. Bom, leiam vcs aí, espero que tenham paciência para chegar ao final, gostem e deixem comments (é desolador escrever e ver 0 comments durante dias a fio).


Ser um boi de promessa legitima sua origem. Assim Lindolfo Monteverde, na década de 10, garantiu botar seu boi. E no lado contrário, do Caprichoso, também existe uma história de promessa, contada por Odinéia Andrade, do departamento cultural do touro negro. Os irmãos Roque da Silva Cid e Tomas Cid, cearenses vindos do Crato, teriam feito uma promessa a São João para que tivessem sucesso ao migrar para Parintins, em 1913. Eles então se juntariam ao manauara Emídio Rodrigues Vieira, primeiro dono do Boi Caprichoso.


“Deve-se observar que as versões sobre o surgimento dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso fazem menção a uma promessa feita a São João por um dono ou amo de boi, com a finalidade de receber uma graça, no caso, em função de doença – de que foi acometido Lindolfo Monteverde – ou para alcançar êxito na nova terra, como acontecera com os irmãos Cid. Nessas situações, a obrigação do promitente seria de ‘botar boi’ na rua, inclusive contando, após a sua morte, com o ‘prosseguimento do boi’ que deveria ser assumido pelos filhos.” (BRAGA, 2002: 354)

O boi de promessa toma posse do espaço na arena. Como observa Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, no já citado artigo “Os sentidos no espetáculo” (ver alguns posts abaixo), uma diferença marcante entre o boi-bumbá e o carnaval carioca é que no Bumbódromo circular as tribos e alegorias preenchem toda a área, e a evolução “acontece”; enquanto no Sambódromo linear as alas “passam” rapidamente como o tempo. Na arena, observo uma formação que refaz o mundo naquele círculo, ocupando todos os pontos cardeais: a orquestra percussiva na área norte do círculo (próximo à tribuna de imprensa e jurados), tribos enfileiradas nos quadrantes leste e oeste, e o palco da alegoria principal bem ao centro – axis mundi. O sul é a rota de fuga por onde entram e saem os brincantes. Várias vezes durante as apresentações, os momentos gloriosos se representam numa ligação céu-terra: na noite de 29 de junho, o beija-flor carrega a cunhã-poranga enquanto o apresentador comenta, vejam só senhores jurados, como a galera do Garantido aplaude a nossa cunhã-poranga! (enquanto a arquibancada vermelha e branca se mantinha, conforme as regras, impassível no silêncio, apesar de alguns discretos dedos médios apontados na direção de Arlindo Jr.). Também do céu para o chão, boi Caprichoso no meu chão e no céu, uma garça traz o pajé Valdir Santana, do Caprichoso, enquanto a galera acende velas verdes e amarelas na arquibancada toda escura, num céu de estrelas do Brasil. No ritual antropofágico, o Ibirapema, tudo fica muito claro: o dia exclui a noite e esta o dia abate. Só um pode vencer. Mas aí a noite vem e o dia outra vez; um ano passa com a derrota e o próximo aponta a esperança de vitória.


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