Pat na Amazônia

30.1.05


Über Kaffee und Zigarretten

Das ist ein Film dass ich highly recommend. O Jim Jarmusch, quem diria, nasceu no Ohio, é um caipira-pira-pora dos EUA, apesar de que Thomas garante que o Kerry ganhou no Ohio. É, ganhou no Ohio, na Califórnia, no New Jersey e mais onde? Nova Inglaterra? Tá, o United States of America tem cinqüenta estados e o Kerry ganhou em cinco. Não, foi mais do que cinco, resmunga Thomas irritado com o meu viel plappern enquanto aguardamos largados no sofá mole do Top Cine pela sessão. Entro na resmunguice, até quando vamos ser obrigados a agüentar o United States of America como superpotência mundial? I can´t bear it anymore. Afinal eles assinam e cumprem Kyoto ou qualé mano? Ele me desanima, por mais muito tempo [os Estados Unidos da América do Norte serão superpotência mundial]. Contemporizo, ora bolas, o Império Romano durou seis séculos, o Império Britânico durou três. Não, durou bem mais que três, replica Thomas. Ah, é verdade, se considerarmos que o United States of America é colônia inglesa, o Império Britânico dura os mesmos seis séculos do Império Romano. Tá na hora de acabar. Aí ele fica echt irritiert com minhas considerações e agora vem checar was schreibe ich. Respeita, cara, blog é diário na internet, eu escrevia no papel quando era criança e agora boto aí no computador, dá tudo na mesma (mais ou menos, aqui vem um ou outro gato pingado ler essas verborraguéias, como diz o próprio, de quando em vez).
Puxa vida, mas era pra eu falar do Jim Jarmusch? Ah não vou falar não. Vão no kino ver Sobre Café e Cigarros que é bem divertido. Aquele tema de short stories na aldeia global como ele sabe fazer direitinho.


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27.1.05


Tudo é relativo

Seu dia foi ótimo? Parabéns pra você. Seu dia foi péssimo? Pense que para uma pedra, ótimo ou péssimo, seu dia foi insignificante. Na dança dos continentes, um dia representa 1,6 mm de afastamento entre África e América do Sul. Um quase nada, um menos que um cuspe, um menos que um piscar de olhos. Por isso, nunca se abale com os acontecimentos do seu dia, porque seu dia, para uma pedra, é o nada.


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26.1.05


Somos todos botos (e sucuris)

O maior órgão sexual dos humanos é o cérebro, formado embriologicamente de três cérebros, 1. o reptiliano (que nos injeta o espírito de fight or flight, atacar ou fugir), 2. o límbico, que compartilhamos com todos os mamíferos e finalmente 3. o neocórtex, exclusividade do sapiens. Graças a este institucionaram-se códigos de conduta nas relações humanas, inclusive na cama. Mas não é por sermos sapiens que deixamos de lado nossos instintos impulsivos ou nossos desejos límbicos. Na trilha de Edgar Morin, podemos afirmar que o Homo é sapiens e demens, ludens e faber.

Os cetáceos, por exemplo, têm a sexualidade bastante parecida com a nossa, até os genitais são semelhantes, foi isso que inspirou a lenda do boto e infelizmente leva à morte e mutilação desses animais, cujos pênis e vaginas são vendidos como afrodisíacos no Mercado Ver o Peso de Belém. Faz pena ver. Alegria é observá-los emergir e submergir nos banzeiros, numa dança poética por rios e paranás, lagos e furos. Quando completei trinta anos e fazia minha primeira visita a trabalho à Amazônia, ganhei um banho no Paraná do Ramos, à beira do qual vive o poeta Thiago de Mello, horas rio abaixo. A corrente era muito forte, por isso precisava ficar perto do barco e do regatão (distribuidor de peixes e víveres) onde estava ancorado. Pois logo apareceram seis botos, três rosa e três tucuxi (cinza) para me fazer companhia, o melhor presente de aniversário da minha vida. Eles eram quase animais de estimação, devido à comida farta - restos de peixes e outras sobras do regatão. Segundo os engenheiros florestais que depois embarcaram na viagem, os botos têm sensores de ferormônios, similares entre nossas espécies. A comunicação intersubjetiva, já sabemos, não é exclusividade humana. Outros mamíferos e até mesmo animais "inferiores" são capazes de se comunicar - não por uma linguagem abstrata de signos como a nossa; mesmo assim mensagens são enviadas e recebidas entre os menores organismos vivos. A vida é sempre inteligente.

De volta ao início dos tempos, ao frescor do sapiens-ludens-demens-faber, o sexo é ao mesmo tempo natural e sublime, algo que nos aproxima dos seres que nos antecederam na história do planeta e daquilo que ainda é porvir, o imponderável. Foi uma invenção cartesiana a separação do ego cogitans da res extensa, foi uma invenção iluminista a dissociação do Naturwissenschaft do Geistwissenschaft - a fraternidade do saber espiritual e natural, das ditas ciências duras e das ciências ditas humanas. Meu trabalho de sentir, pensar, agir, sempre em consonância com os três cérebros que habitam meu corpo, busca associação e evita dissociação. Quem fala agora é a pesquisadora mas acima de tudo a mulher. Uma mulher que sonha e luta a seu modo por uma nova consciência na Terra, onde as pequenas dores e sofrimentos moralistas sejam objeto de estudo dos historiadores da psicologia social, ou melhor dos arqueólogos, de tão entranhadas no passado. Sei que se trata de uma utopia mas não de uma atopia. Esse lugar existe, existe dentro de mim, de você e de todos nós. Cabe à humanidade dar esse salto para o horizonte infinito.



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19.1.05


No auto do bumba-meu-boi nordestino, boi-de-mamão catarinense, boi-bumbá amazônico, um rico dono de fazenda presenteia sua filha, a sinhazinha, com um boi precioso. Ela o alimenta com sal e capim, ele é seu brinquedo. Pai Francisco, peão da fazenda, ouve de sua mulher grávida, Mãe Catirina, que deseja muito comer a língua do boi, que é então morto, para desespero da sinhazinha. Nas tentativas de ressuscitar o animal, o padre fracassa, então se chama o pajé, que consegue o feito. Eis o núcleo universal da história, agregado, em Parintins, às lendas, figuras amazônicas, rituais, que configuram unidades narrativas encenadas coletivamente. Os chamados itens individuais, também avaliados pelo júri, protagonizam pontos altos da apresentação: cunhã-poranga (mulher bonita em tupi), rainha do folclore, porta-estandarte, tuxauas (chefes políticos indígenas, encenados em fantasias alegóricas, os capacetes, que chegam a pesar 20 quilos). Sinhazinha da fazenda e pajé, diretamente migrados do auto do boi, fazem também suas evoluções individuais. Dançam na arena sob a voz do levantador de toadas, envoltas pelas tribos – correspondentes às alas do carnaval carioca. Se no Rio há puxador de samba como em Parintins existe o levantador de toadas, falta porém a prosa do apresentador e o próprio espaço circular da arena de 50 m de diâmetro.[1] E falta a poesia do amo do boi, improvisada em versos setessílabos como na tradição nordestina:

Meu coração é vermelho
Meu sangue da mesma cor
Um simboliza a vida
Outro garante o amor

Boi Garantido é paixão
Que conheci em criança
Atrás do boi eu andava
Eu guardo eterna lembrança
Foi o meu boi Garantido
Que fez feliz minha infância
Eu nunca vou esquecer
Daquela noite estrelada
Quando te vi Garantido
Brilhando na madrugada

Vou acender a fogueira
Que o tempo quase esqueceu
Pra Santo Antônio, São João
e pra São Judas Tadeu
Foi de promessa cumprida
Que o Garantido nasceu

(...)

Lindolfo o patriarca
Dos Monteverdes da ilha
Lindolfo estando doente
A São João prometeu
Um boi-bumbá garantido
E a promessa valeu
Foi de promessa cumprida

Que o Garantido nasceu

[1] Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti desenvolve o paralelo entre o carnaval do Rio e o boi-bumbá de Parintins no artigo “Os sentidos no espetáculo”, publicado no site da Revista de Antropologia.


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