Pat na Amazônia

27.2.04


O sucesso da minha geração, de A a Z

Chega de falar do Denis, que afinal pulou a fila alfabética. Vamos à

Alessandra Ceregatti
Paulistana da gemma: mezza italiana, mezza japa, seu nome do meio - Oshiro - se traduz castelo, nascida em 28 de maio de 1972 e sempre criada na paulicéia. Conheci essa menina num momento deveras difícil e estressante para nós duas: a segunda fase do vestibular da Unicamp. Lembro que a caneta dela sumiu, ofereci a minha bic extra e ela: não, quero a minha pilot! Ela hoje jura que não falou nada disso, mas foi o que ouvi. E pensei: é uma metida. Dias depois li uma entrevista que ela deu pra Folha, dizendo que iria comemorar a passagem no vestibular com champagne. Mais tarde soube que não era nada disso, apenas tinha sobrado uma garrafa de Sidra Cereser do ano novo e ela ia "encher a cara" com esse doce néctar (ugh!) se tivesse a gloriosa notícia. Além de prestar ciências sociais na Unicamp, ela também era minha concorrente no vestibular para jornalismo da ECA/USP.
Quando minha mãe disse que eu tinha passado, corri para a lista para procurar se "aquela metida" ia ser minha colega de turma. E foi. E tudo mudou quando nos conhecemos de verdade. Ale me ciceroneou na cidade, ela que sabe de cor os números e itinerários dos ônibus do centro para a zona oeste, leste, sul e talvez também norte. (Lembro que uma vez perguntei o nome da volta do "Vila Ida" e ela disse "Anhangabaú", e eu, não, não. Não? estranhou Ale. E eu, a volta do Vila Ida é Vila Volta, rárárá, primeiro de abril!) Com ela conheci a gráfica onde os japas imprimem seus jornais na Liberdade (ela fazia digitação ou revisão por lá), conheci os sem-teto da várzea do Glicério, os militantes católicos na paróquia da Paz. Com ela viajei para a Argentina, pelo projeto "Nossa América Latina", coordenado pelo prof. Bernardo Kucinski, atual mentor da comunicação no governo Lula. Ale sempre foi e é grande companheira - em todos os sentidos do termo. Lembro da força que me deu - e do almoço num tenedor libre de Corrientes que me pagou, eram seis pesos - num fadado domingo em San Telmo, quando me roubaram os únicos 400 dólares que tinha agarrados na minha bolsa: um truque bobo, eu entrava no ônibus, um meliante foi na minha frente e outro atrás, o da frente fingiu que se enganou de linha e na confusão o outro abriu minha bolsa. E eu achando que Buenos Aires era civilizada e mais tranqüila que São Paulo...
Hoje passaram-se dez anos daquela viagem em que reportamos a crise de Estado na Argentina - quase ninguém mais se lembra, na província de Santiago del Estero, mil quilômetros a noroeste de Buenos Aires, a população botou fogo na Casa de Gobierno e escrevi um "Diário do Fogo". Li o texto recentemente e, não tenho vergonha da imodéstia, estava muito bom. Menti pra Ale, dizendo que a Vasp, que patrocinou nosso vôo, só tinha liberado o domingo 17 de julho de manhã. Queria ver a final da Copa no Brasil, e Ale não liga lhufas pra futebol. Foi a copa do tetra, gente, imaginem só eu na Argentina! Tudo bem que com a saída do Maradona pela efedrina, os portenhos diziam com muita convicção que torciam pelo Brasil. Foi em 17 de julho de 1994 a final da copa nos Estados Unidos, isso centenas de milhões lembram. Meia dúzia de gatos pingados, entretanto, deve se lembrar que no dia seguinte explodiu uma bomba na Amia, associação israelita no centro de Buenos Aires. Menem - ups, mão no peito (ou no saco se for homem) para proteger da mala suerte - enfim, el Presidente, todos sabem, é descendente de árabes. E há quem ache que ele não fez nada para evitar o ataque terrorista. O fato é que perdemos de estar lá durante esse fato histórico, tudo em nome do tetra. Acho que isso, Ale não sabia. Espero que não fique brava. Nossas mães - Reiko e Matilde - certamente gostaram da minha decisão. Ficariam pra lá de aflitas se estivéssemos em Corrientes no dia 18 de julho de 1994. (Por falar em fatos históricos, a própria lembra que viajamos em 30 de junho de 1994, data da instauração do real. Naquela época, os câmbios de dólar, peso e real estavam perfeitamente alinhados em 1 pra 1. Graças a esse câmbio fictício, mantido por quase cinco anos, fui cinco vezes à Europa - e agora basta, pois o euro teuro, euro caro, tá proibitivo).
Mas este post é para contar o sucesso da Ale. Conforme consta em "ata das lulus", datada de 9 de junho de 2002, quando se reuniram aqui em casa Ale, Ju, Pat Giu, Marcia B e eu (as outras lulus merecerão posts especiais em futuras ocasiões), nessa época a mezza italiana mezza japa militante de carteirinha do PT acabara de receber um convite para a coordenação executiva do Fórum Social Mundial. Aceitou, e hoje, com sua humildade, tolerância, organização e talento, é a "mulher do chicote" do FSM. Chicote é chacota da Pat Giu, que trabalha com Ale no escritório da General Jardim fazendo o site do FSM. Ale, como a própria percebeu depois de três meses na Índia, é extremamente tolerante. E flexível, adaptável... e workaholic até a última molécula de tiroxina que ela toma todo dia. A menina tem hipotiroidismo mas parece hiper, porque tão ligada nos 220 volts. Queria saber da Índia ainda Índia, aquela do iyengar yoga, aquela dos templos de meditação, aquela das arqueologias culinárias narradas pela antropóloga carioca Fernanda de Camargo-Moro, e ela só nos contava do Fórum, dos bastidores, dos qüiproquós políticos, da incompetência de alguns jornalistas destacados a cobrir o evento, mas também da gente boa que lá compareceu. Só falava de trabalho, e eu queria saber da Índia. Finalmente, depois de dois dias aqui em casa neste carnaval (o apê dela foi dedetizado), soube um pouquinho de sua experiência pessoal na Índia. Ela disse: precisamos ir pra lá. E eu: sim, só pra fazer meditação, temos que ir pra Puno. O Osho? É, o Osho, o Usho, o Isho tudo que a gente merece, só curtir. Quem sabe antes dos quarenta a gente junta grana pra isso... Por agora, até 2006, meus trocados serão reunidos para a Amazônia.
Aiaiaiai, será que rola o boi em Parintins? Tomara que sim.
Ufa, e isso era pra falar do sucesso da Ale. Pois é, ela acredita no tal "outro mundo possível" e trabalha muito por ele. E eu, tá bom, também acredito num outro mundo possível, mas como consegui-lo? Ele já existe, diz ela. Onde? Como? Por que? Ah, são questões muito complexas, e cada canto do mundo criou sua solução.
É... depois de caminhar cinco quilômetros no Ibirapuera, tomar açaí conversando com o China na banca de frutas da praça Carlos Gardel e só lembrar que esqueci de lhe entregar os cinco reals na hora de pagar o chá de guaco na farmácia homeopática, começo a crer num outro mundo possível. Agora a questão é: para quem? Segundo Maria Teresa Cruz, crítica literária portuguesa, eis a questão fundamental da ciência contemporânea: para quem?


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26.2.04


Comecei a ler o livro Gênero nas Políticas Públicas, que minha prima, a dra. Ana Lúcia Cavalcanti, médica ginecologista e militante do feminismo há duas décadas, me emprestou.
Políticas públicas - eis uma temática que cada vez mais me interessa. Vou buscar uma disciplina, um seminário, enfim, um estudo aprofundado enquanto sou doutoranda. Quero essa formação para me "diferencializar".
Com certeza minha turma de colegas ecanos (ingressantes em 90/91) é muito especial, e me orgulho do sucesso de cada um, em sua trilha. Incluído aí o sucesso do Denis na Abril. Ele é um cara extremamente focado em resultados, afinado com a cultura da empresa, mas tem a cabeça aberta. Se mais pessoas como ele ocupassem postos de comando na torre da árvore, teria melhores esperanças sobre o comportamento do Walter Mercado no futuro. Vamos torcer, por ele e por nós, por nós jornalistas, por nós cidadãos, por nós incluídos e principalmente pelos excluídos a quem tanto devemos.
(...)
Todo repórter deveria ser um repórter social, todo repórter deveria ser um cidadão. Porém só compareci à minha primeira reunião do Orçamento Participativo no sábado 14 de fevereiro. E, coincidência ou não, os moradores do meu prédio estão finalmente mobilizados contra a troca das janelas - que são aquelas antigas e maravilhosas persianas de madeira - por esquadrias de alumínio, feiosas e que tapam a luz e a vista em metade do vão. Esta idéia de jerico é do síndico, que não por acaso tem uma representação de materiais de construção... enfim, a cidadania começa dentro de casa. E o retorno à vida doméstica tem me resgatado a porção cidadã, meio abandonada quando ia todas as manhãs para a torre da árvore.


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25.2.04


Copy-paste

Da minha dissertação de mestrado, Tirando o manual do automático, apresentada na ECA/USP em 26 de março de 2002:

Quem exclui autoritariamente conclui, fecha. Quem admite humildemente incluir o sonho do outro desenlaça, abre possibilidades (...)
Que fechamento, que nada. Desenlace da edição seria mais apropriado. (Em francês, bouclé de edition se refere ao emaranhado agônico frente ao prazo que se aperta). Façamos nosso o pedido do escritor mexicano Carlos Fuentes: alcancemos o novo século e o novo milênio "com o orgulho de uma missão cumprida mas inacabada, acompanhados da memória de quanto fizemos e com a esperança de quanto falta por fazer" (...).

Por isso, por causa do desenlace da edição, Desenlace é o "nome fantasia" de minha microempresa de uma pessoa só. A missão da Desenlace é fazer um jornalismo assim, transubjetivo. Primeiro com uma pessoa só, depois com um grupo de elite - companheiros de jornada, muitos deles freqüentadores deste blog, outros tantos colegas silenciosos mas atentos à profunda transformação de valores (epistemológica) no jornalismo - e finalmente nas novas gerações por vir. Por isso escolhi a carreira acadêmica. Porque empresa se faz com uma pessoa só, constelações de valores/paradigmas, dependem de centenas, milhares, centenas de milhares. Depende principalmente da formação de uma massa crítica e consciente de seus limites e potenciais, capaz de pesquisar e produzir novos conteúdos, corajosa de romper com as velhas fórmulas por mais que desditem os manuais das corporações.

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Primeiro post da Quaresma
Será que com esse título vou angariar banners de organizações e/ou livrarias católicas?
Porque foi botar receita que apareceu "emagreça já", foi fazer homenagem a Hilda Hilst e entrou hotel em Gramado - não entendi a relação: escapada romântica e poema erótico? será isso? Essa fusão Blogger + Google é mesmo engraçada, como é engraçado o tal do Oracle, como disse um passante que não deixou email tempos atrás.
Bom, vou falar algumas poucas linhas sobre o tema-núcleo do título.
Quaresma é tempo de reflexão, lembra o padre Giorgio, da igreja de Santo Antônio, no largo paulistano do Patriarca - aproveitemos que as igrejas reabriram para visitar essa pequena jóia rococó. Acho que já escrevi isso aqui, ou não?
Portanto, vamos refletir sobre o que fizemos e o que desejamos realizar, sobre o que erramos e queremos acertar, sobre o que nos falta e o que nos sobeja, sobre a felicidade que está ao alcance de todos nós incluídos digitalmente. Sobre a felicidade que falta a quem não tem o pão nosso de cada dia. Sobre a saúde física e mental que rareia aqui e ali. E, principalmente, sobre a PAX gloriosa e plena que todos tanto necessitamos. Amém.


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20.2.04


Saudosa Hilda Hilst
"Nenhum muro é tão alto
Nem um poço tão profundo" (tão pouco profundo?)
é algo mais ou menos assim um verso, o primeiro verso dela, que li, na aula da menos saudosa Terezinha - menos saudosa porque esta ainda permanece pelas bandas de cá, inclusive dando aulas na pós da ECA.
Hilda Hilst, porém, deixou esta Terra de Vera Cruz, esta São Paulo de Piratininga - vá lá, morava no interior, mas não muito longe da paulicéia que talvez a tenha desvairado.
Hilda Hilst nos deixou sem dizer adeus, talvez amarga pelo não-reconhecimento.
Hilda Hilst deixou uma renque de cães e cadelas ganindo sua ausência.
Hilda Hilst deixou plantas e pássaros e adeuses no seu sítio.
Hilda Hilst deixou tristes as quaresmeiras que já floram. E deixou tristes os ipês que ainda não floriram, e os flamboiãs que acabaram de se despetalar.
Quem não conhece a poeta Hilda Hilst, procure a biblioteca mais próxima.
Ou então aproveite o fragmento a seguir, retirado de A Posse da Terra, antologia-reportagem, melhor dizer, reportagem antológica de Cremilda Medina com autores brasileiros contemporâneos (ela também fez Sonha Mamana África e o dos portugueses, cujo título esqueci).

"Se me viessem à boca
As palavras foscas
Pra te abrandar.
Se levez e sopro
Habitassem a casa
Do meu corpo
Não seria eu aquela do teu gosto
E amarias lírios
Ao invés de ostras.
Se comedimento
Mornidão, prudência
Me dourassem a carne
E o coração
Tu me dirias rouco
Que a bem do Desejo
Desfez-se o Paraíso
E inventou-se a Paixão."

Apropriadíssimo para o meu, o seu, o nosso momento pré-Momo e breves cinzas. A Quaresma se aproxima, as copas das árvores já lilazes-violeta.


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19.2.04


Já que a audiência do post abaixo foi das maiores neste quase um ano de Pat na Amazônia (em que, infelizmente, Pat ficou efetivamente apenas 40 dias lá, mas como bem diz o Maurício, a Amazônia se impregna na alma e pronto a gente carrega ela com a gente onde quer que vá), vou publicar a tão prometida receita de

Arroz Tropical,

que vai muito bem com o
Lagarto do Regresso

2 xícaras de arroz (pode ser aromatizado de jasmim, ou integral, ou cateto)
1 pacote de cogumelos frescos da feira
1 abacaxi grande e maduro (de preferência, vindo de Petrolina)
2 colheres (de sopa) de azeite
1 xícara de coco ralado na hora (também na feira, o meu compro a Noca da tapioca)
2 colheres (de chá) de mel
100 g de castanha de caju
1/2 xícara de uvas passas (opcional - Thomas não gosta, então deixo fora)
(as uvas passas podem ser substituídas por damasco seco picadinho)
um tantico de sal, uma pitada cheia (junte três dedos ao polegar e tenha uma pitada cheia) daquele masala de açafrão com pimentas branca, rosa e síria. A mulher dos temperos na sua feira sabe fazer, Nalva na Tutóia acerta bem a mão.
2 ramos de coentro picados (se os comensais paulistas não gostam do aroma intenso do coentro, substitua por salsinha)

Lave o abacaxi e corte no sentido longitudinal - do comprimento. Retire a parte central da polpa e deixe 2 cm de bordas. Reserve 1/2 xícara do suco que se formou. Pique a polpa em cubinhos. Esquente o azeite na panela e coloque os cogumelos. Regue com um pouquinho de shoyu - cuidado pra não ficar muito salgado. Junte o coco, o mel, as passas ou damascos ou nenhuma das frutas secas, acrescente então as castanhas de caju picadas, e então o arroz. Mexa bem e cozinhe por alguns instantes. A medida da água para o arroz integral ou cateto é assim: cubra todo o grão com água e continue colocando água até cobrir a primeira falange do indicador. Não sabe onde é? É ali a primeira dobra do dedo, logo depois da unha. Se usar arroz branco, vá na clássica receita da mãe: 2 xícaras de arroz, 4 de água (é sempre na proporção 2:1). Ah! Não esqueça a pitada cheia do masala e, se necessário, do tantico de sal.
Depois de cozido, acrescente o suco de abacaxi - aquele que se formou enquanto você o descascava e cortava - , os raminhos de coentro e os cubos de abacaxi.
Acomode o arroz tropical nas cavidades da fruta e sirva bem quente.
Se você receber mais do que quatro pessoas, desista de servir no abacaxi e duplique a receita acima (para oito, evidentemente).
Dito assim parece difícil, mas juro que não é. Eu que sou muito palavruda e talvez pouco didática... pra culinária só precisa uma coisa, caros alunos e alunas: paciência.
Minha amiga Ju diz que precisa criatividade, isso é verdade, mas isso todos temos.
Paciência é coisa que se exercita, e o fogão é ótimo lugar pra isso. Nas minhas noites de insônia - felizmente cada vez mais raras e restritas a uma ou outra madrugada de TPM - gosto de amassar pão. Terapia melhor não há - talvez amassar barro. Já sonhei que fazia um curso de cerâmica, quem sabe não ingresso em um este ano? Só se for "de grátis", of course.


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14.2.04


Percebi, nos blogs dos meus ex-alunos, agora veteranos de jornalismo na ECA, uma demanda reprimida por aulas de culinária. (Especialmente a Alice Chebel).
Por isso, enquanto o departamento não faz sua décima-quinta reestruturação de currículo, incluindo as obrigatórias aulas de culinária para os alunos que saíram do ninho dos pais (optativas para os outros), vou aproveitar para deixar umas receitas e dicas aqui.
Ontem, em homenagem à volta da Ale da Índia - ela estava doida por uma carne de boi, e eu vegeba, vegeba, o que a gente não faz pelos amigos? - assei um delicioso e substancial

Lagarto do Regresso

Atenção, analfabetos culinários: lagarto é aquele corte traseiro do boi que fica bem cilíndrico, tal como o corpo do réptil. Encontra-se em qualquer açougue, não é iguaria "exótica" de longínquas tribos indígenas amazônicas.

Para oito pessoas civilizadas, tome 1,5 kg de lagarto bem magro. Se forem glutonas, aumente para algo em torno de dois quilos. Fure a carne com a ponta da faca (ou o garfo, se vc for desastrado feito a Alice Chebel) e regue com um suco de dois limões, hortelã e um pouquinho de gengibre e salsinha, suco esse batido no liquidificador (experimente tomar de manhã, é uma delícia!). Feche os furos da carne com sementes de anis. Pegue um pedacinho pequeno de pimenta cugritá ou um dedo-de-moça (a pimenta, não estou aqui estimulando o canibalismo) e espatife com um garfo, espalhando pela carne. Esfregue nela um tantico de sal marinho - sal a gosto tira o gosto das coisas, minha amiga Ale sempre acha que meus pratos são pouco salgados mas nunca reclama que são pouco saborosos. Se gostar de sabores picantes, polvilhe páprica e um masala de pimentas rosa, síria e branca com açafrão. Não fique triste se não tiver o masala da Índia, peça pra mulher dos temperos na sua feira moer na horinha procê. Não fica igual, mas sai gostoso.
Aí deixe no forno baixíssimo durante uma hora de relógio (nada de se perder na internet enquanto isso, hem, Alice?) e tire o bicho do forno para espalhar um pouco de geléia nele. A de cidreira e a de acerola ficam ótimas - não pode ser nada muuuito doce. Volte ao forno, agora na temperatura média, e continue virando e regando a carne com o suco, para que fique macia. Depois de duas horas e meia ele tá pronto.
Retire todas, eu disse todas, as sementes de anis. Se alguma ficar e uma criança feito a Vero comer por engano, tadinha, vai ser um pouco traumatizante. O anis é delicioso para o meu paladar, mas não é todo mundo que gosta de sua doçura mentolada. Por falar em anis, é dele o primeiro aroma que se desprende quando o forno vai esquentando. A casa fica delicadamente perfumada.
Para acompanhar o Lagarto do Regresso, sugiro um arroz ou Knödel (aquelas bolas feitas de massa de batata, que os alemães adoram comer com assados) . E muita salada verde, pra digerir tanta proteína.
O quê? Não sabe fazer arroz nem salada? Ih, fiz tudo errado. Iniciei o curso já no nível avançado e, como bem diz Alice - a do País das Maravilhas - há que se começar sempre pelo começo.


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13.2.04


Pra matar saudades a gente faz o quê? Olha fotos.
Peguei meu álbum - de papel, foto e cantoneira, vocês já hão de ter reparado que não sou afeita à câmera digital - e recordei Silves, Urucará, Parintins, Santarém e Belém.
No final do álbum, estava escrito assim:

Entre uma e outra atravessagem
o luto doméstico
afinal, isto é que são férias
desembrulhar guardados
faxinar o passado
carinhar lembranças
colá-las feito velha criança
rir do que se foi levado a sério
- na ja, Frau Doktor
keine Doktor
nur eine kleine Masterin
(und vielleicht)
KAMCHATKA
jetzt hab´ich verstanden, lieber Jörg
TAMBÉM LHE DESEJO TUDO DE BOM
NO NOVO ANO BOM
Quem sabe a nova Chapada
(dos Veadeiros)
Ou talvez Belém-Brasília de carro,
pra dar um tempo
na compressão espaço-tempo
(os pterodátilos de aço, vistos de baixo,
ora ora são tubarões)
Mumbay? prondesevai?
não importa o destino
importa a atravessagem
inda que imóvel
atravesso montanhas
falo com amigos distantes
esqueço fusos e confusos
o globo é ilusão
tudo mora na mente
os encontros e os desafetos
os incômodos e os prazeres
os contatos e as perdas
"inda ainda Índia
indiara indiará
onde anda minha
estrela" do Andirá?
No meio do coração
terceiro olho ou umbigo
amigo
No plexo
amplexo
solar
daquele que viu o Boitatá
daquele que não me viu chegar
daquele que foi correndo me buscar

Todos me salvaram do adeus.
UAKO KARRATÓ
Obrigada
a todos
que mergulharam
para me trazer de volta à tona.
Valeu a pena
pois que nenhumalmas são pequenas.

E quem quere passar além da dor há de passar além do Bojador.
Creio eu que já sim, por mim.


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12.2.04


I have a dream.
Sonho com o dia - na ficção científica, será o século XXIII, mas na minha sonhação, será ainda nesta vida minha - o dia glorioso em que todos seremos irmãos, todos trabalharemos no que acreditamos, todos não precisaremos do dinheiro para acumular, e simplesmente para usufruir - portanto, não precisaremos dele, ele irá e virá como as ondas do mar, só para o nosso prazer.
Sonho com o dia que, segundo os maias dizem, vai chegar logo.
Com o dia em que retornemos às nossas origens do primeiro habitante desta Ilha dos Papagaios, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Ibirapitanga, Brasil.
Desde já morro de saudades da Amazônia. Quero voltar lá nas minhas férias!
Rubão, descola aí um patrocínio para a minha ida. Quero ver o boi no curral do Garantido, quero ir pro Bumbódromo - quem sabe desta vez o vermelhão ganha o penta? E quero ir pra São Tomé do Uaicurapá. E quero nadar no Andirá. E quero conhecer a aldeia indígena dos saterê-maué. Uéuéué. Guaraná cecé.
Enquanto não vou, uso o colar de tento e outras sementinhas, tão lindamente arrumadas por algum talentosíssimo designer de jóias saterê-maué. Para quem não sabe, eles são dos melhores designers de jóias da natureza nesse Brasilzão de Deus.

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E para a mami não ficar com ciúme do papi, vai uma básica rasgação de seda (com todo o merecimento). Dona Matilde de Souza Sales, recentemente premiada pelo gato Chalita por causa do projeto Leitura na Escola, já deu aulas no Colégio Objetivo, já foi coordenadora pedagógica, mas deixou tudo isso para fazer o que mais gosta: dar aulas na escola pública. Todo começo de ano ela pergunta aos alunos: vocês querem que eu prepare vocês para a vida, para o trabalho, ou para o vestibular? Alguns dizem para o vestibular, a maioria responde para a vida, para o trabalho. Sorte deles que têm minha mãe como professora. É opinião completamente parcial, eu sei, até porque nunca tive aula formal com ela - mas dona Matilde conseguiu a proeza de me ensinar a ler aos dois anos e meio. E não foi pelo método silábico, o que, acredito, mudou completamente minha visão de mundo. Se tenho alguma capacidade de associação livre de idéias, de olhar "holístico", é por causa do método de alfabetização de dona Matilde. E, claro, de todas as vivências da infância, com a família, na escola pública, na vida tranqüila do interior, no contato com amigos queridos e sinceros, na universidade de música que é o Conservatório de Tatuí...

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Fazer o bem sem olhar a quem

Meados dos anos 80. Meu pai soube que o Comind incentivava a quitação dos financiamentos da casa própria e correu para a rua Barão de Itapetininga. Perto dos 40 anos, iria finalmente ser dono de seu primeiro imóvel. A fila era grande. Logo à frente dele havia um baiano, negro, chamado Raimundo. Faltava um par de cruzeiros (seriam cruzados?) para ele completar a conta. Era assim: o Comind mandava uma correspondência dizendo que faltava tanto para quitar o imóvel, o cidadão levava o dinheiro contado e chegando lá, por causa da hiperinflação, o valor tinha subido.
Quem tem mais de 25 certamente se lembra da piada na TV Pirata: a mulher passando rápido as compras no caixa do supermercado e a soma aumentando, aumentando antes mesmo que ela passasse o próximo produto. Aí veio o Sarney com o Plano Cruzado - que rendeu a maravilhosa reportagem do Setti sobre seus bastidores, recentemente editada em pocket-book - e congelou os preços. Foi a festa para a classe média, fiscais do Sarney, tabela da Sunab e tal. Assim meus pais conseguiram me comprar um Essenfelder diretamente do Paraná. Este mesmo que finalmente, depois de treze anos, trouxe para São Paulo e prazerosamente dedilho.
Mas estamos aqui para falar da cena no Comind, com o baiano Raimundo. Ele não tinha o punhado de trocos que faltava para completar a conta. E a fila não andava. E ele não queria sair da fila. E todos atrás gritando: sai, Raimundo, sai Raimundo.
Até que meu pai falou: Fica, Raimundo. E deu a grana pra ele. O homem ficou perplexo, embasbacado: Como é que eu vou fazer para lhe pagar? Não se preocupe, lá embaixo a gente conversa sobre isso. Pague e libere a fila porque eu também quero quitar minha casa. Fique aí me esperando.
Os dois saíram do prédio e, na calçada da Barão de Itapetininga, o senhor Inaldo disse ao senhor Raimundo: Eu estou feliz por quitar a minha casa, você também, vamos deixar assim mesmo. O homem abraçou forte meu pai e saiu, eternamente agradecido.
Minha mãe comenta: é, seu pai não é chegado em igreja nem em oração, mas isso sim é a verdadeira oração. Fazer o bem sem olhar a quem, o ensinamento cristão feito na prática. Vivemos num país em que rezar só não basta, carece de ação. Mesmo pequena, uma pequena ação vale mais que uma grande oração.


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10.2.04


Taí mais um desafio pro João Gabriel (o jornalista e pianista João Gabriel de Lima, editor de Veja).
O soneto que meu pai recitava ele acertou (estou devendo uma prenda, não esqueci!).
Agora vamos à Tirana da Rosa, "folclore do Jequitinhonha" que a mineira de Divinópolis Denise Gonzaga gravou com sua voz cristalina e um belo arranjo barroco de cordas e cravo. Diz aí, jotagê, quem foi o autor dessa cantiga de amor. Tá muito rica pra ser chamada "folclore":

Subi no pé da roseira, ó rosa
Tirana
para ver se te avistava, ó Rosa
Cada rosa que se abria, ó Rosa
Tirana
Cada suspiro que eu dava, ó Rosa
Cada lenho um pé de rosa, ó Rosa
Tirana
Que nunca foi apagado, ó rosa

Namorei uma morena, ó rosa
Tirana
Que nunca foi namorada, ah,ah, ó rosa

A rosa p´ra ser cheirosa, ó Rosa
Tirana
É de ser-te Alexandria, ó Rosa
(...)
Ó Deus, carinha de rosa, ó Rosa
Tirana
Claros dentes de marfim, ah,ah, ó Rosa

Você anda mundo inteiro, ó Rosa
Tirana
Mas não se esquece de mim, ó Rosa


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9.2.04


Ontem caminhei em Tatuí com meu pai - a gente conversa muito, ele pára pra roubar manga e goiaba e aí o que seria um exercício aeróbico vira passeio. Entre outras coisas, me disse que quer virar trilheiro. Aos sessenta, redescobriu o prazer da infância. Não é legal? Ele sempre faz a volta de seis quilômetros no condomínio, mas agora quer ampliar os horizontes e talvez resgatar o tempo em que ficava enfiado na mata sul de Pernambuco (pena que quase toda ela foi destruída nessas últimas cinco décadas...)
Dou a maior força e já estamos combinando os próximos roteiros, tudo mais ou menos perto de Tatuí: Morro Ipanema, em Iperó, a trilha de Itu a Pirapora, Juréia (de Peruíbe)... gosto muito de me enfiar no mato com meu pai porque ele sabe tudo de passarinho e nome de árvore. Enquanto a Amazônia não vem, o que restou de Mata Atlântica dá e sobra. Por isso compro pasta de dente Sorriso, porque os dez centavos que ela custa a mais em relação à concorrente vão para o SOS Mata Atlântica (pelo menos é o que diz a embalagem). Quando fiz uma reportagem sobre embalagens e os três R - reduzir, reaproveitar, reciclar, descobri que 95% das embalagens de creme dental provêm de papel reciclado. Bom saber. Agora, o que é feito dos tubos de plástico? Eu boto no recipiente de coleta seletiva e não sei o destino deles... alguém aí pode contar?


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6.2.04


Hoje foi um lindo dia, lavado de chuva. Caminhei no parque e respirei suas resinas, seus aromas de eucalipto e flor, ouvi os ruídos dos passos ploft-ploft nos seixos da encharcada pista de cooper, e o pi-piiriri que não é passarinho mas o medidor de qualidade de ar (perto da Praça do Porquinho, sempre me perguntei que ruído era aquele e agora finalmente descobri), e os bem-te-vis com seu inconfundível bom-dia, e os outros pássaros inomináveis, e até um executivo decidindo durante sua caminhada não contratar um sênior por causa de dois mil reais... ix, deixa eu apressar o passo e ficar longe dele! devia ser proibido fazer exercício usando celular!
Antes da caminhada reservei minhas frutas e verduras na feira. Na volta passei no banco, paguei os feirantes e voltei - com um buquê perfumado de lírios brancos, há tempos que não comprava flores, tão caro, né, quase dez reais? chorei um desconto e saiu por oito. Eles estão agora na sala. Ah, eu mereço!
Ju veio aqui pegar o arroz cateto e a partilha dela nas verduras e me trouxe um incenso delicioso da L´Occitane. Já acendi e é uma delícia.


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5.2.04


Ah, não, não quero dormir pessimista. Amanhã será um lindo dia. Então vai a parte dos insights que o Denis tirou do curso (no outro post abaixo estão as coisas que ele ouviu por lá):
"Ø A revista não precisa ser toda lida por todo mundo
É um erro fazer cada página da revista com o objetivo de agradar 100% dos leitores. Cada leitor tem que encontrar na revista pelo menos o suficiente para achar que ela valeu o dinheiro gasto e para dar vontade de comprar de novo no mês seguinte. Ninguém lê a The New Yorker ou a National Geographic inteira – e, ainda assim, ninguém reclama que essas revistas não valem o que custam. Num espelho você precisa ter algumas seções e matérias bem acessíveis, voltadas para todos. Mas o resto pode ser “biscoito fino”, mais “difícil”, para ser degustado por poucos – mas para deixar esses poucos encantados e torná-los leitores fiéis para toda a vida."
" Ø Todo profissional criativo precisa de algo especial
Nem sempre é dinheiro. Muitas vezes é autonomia para fazer as coisas do jeito o que ele quer. Dê isso para ele e ganhe em troca um engajamento em dobro. E não gaste seus neurônios com preocupações do tipo “se eu der isso a ele terei que dar a todo mundo”. Seja flexível, não se curve ante regras burras e irracionais. Liberar um sujeito para descansar numa sexta à tarde, depois de uma tarefa dura cumprida, é um ato simples, que não traz prejuízo nenhum e que vai render muito em troca."""
" Ø Tenha orgulho do seu autor
Se você não tiver, que razão terá o leitor de gastar seu precioso tempo com aquele texto? Apresente o autor na carta do editor ou no final da matéria, mostre ao leitor por que aquele sujeito era o mais indicado para escrever aquilo."
Com tudo isso, digo bem alto: viva o Denis! Denis para direção de redação!

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Não resisti. Já que o Denis autorizou, vou publicar aqui alguns trechos de "tudo o que aprendi no curso de publishing em Stanford". Contextualizemos: Denis Russo, editor da Super, lido pelo taxista que me levou para o aeroporto de Santarém (prometeu preço especial ao seu fã qdo aparecer por lá, viu, Denis, aproveite!). Denis Russo, autor de "Maconha", "Piratas do fim do mundo". O primeiro livro foi extensão de uma excelentemente bem-sucedida reportagem de capa em Super, o segundo, relato de uma aventura na Antártida em um navio de uma ultra-radical organização ecoterrorista. A intenção era afundar baleeiros japoneses, não conseguiram, por falta de profissionalismo - é o que aponta o texto do Denis, crítico mas em tom de papo de botequim. Os "turnos do sapo" (capitaneados por um francês legendário, nas madrugadas), regados a vinho, foie gras, queijo e truta num navio vegan, eram o grande barato, a grande transgressão. Pois paremos de falar desse mocinho de cabelos desgrenhados que chegou à ECA careca e descia sempre de bicicleta desde a Vila Beatriz - uma vez foi assaltado na ponte Cidade Universitária - e passemos ao que ele aprendeu no curso de publishing em Stanford.
Atenção, jornalistas interessados em servir a indústria editorial (livros e revistas). Atenção porque essas informações são preciosas:

"Saber fazer bom jornalismo, obviamente, é uma grande virtude para um editor. Mas não é a única. E, perdoem-me por isso, não é a maior. A maior é:
Ø Entender com clareza o que é a sua revista. Qual é a sua missão.
Ø Fazer com que toda a equipe, do atendimento ao leitor ao diretor de arte, do vendedor de publicidade ao promotor de eventos, do repórter ao responsável pela carteira de assinantes, entenda isso com a mesma clareza."
"Não se espera da revista People, ou da O, que façam reportagens investigativas ao estilo do Washington Times. Isso pode até render prêmios de jornalismo, mas não ajuda a construir a marca."
Quer dizer: se sua preocupação é ganhar prêmios de jornalismo, não vá trabalhar em revista de perfumaria. Ah se alguém tivesse me dito isso há oito anos...
Mas enfim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.
E vale a pena exercitar um pouquinho a humildade, a humildade de "servir uma missão" editorial mesmo que vc saiba que o mundo é muito, mas muito maior que o mundinho recortado pela receitinha de vender revistinha.
Afinal, como diz o professor Chaparro, precisamos comprar o feijão... e amanhã tem feira...
Gute Nacht. Boa Noite. Pá-pararará-pararararará.

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ai, ai, respire fundo, pratique uns asanas e vá dormir...

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Pensamento de cabeceira - pra ir dormir - porque agora estou em casa e Thomas precisa e quer dormir.
Inteligência demais, erudição demais, faz mal?
A julgar pelo Silas, dói, dói à beça, e dá uma tristeza danada mergulhar nas profundezas.
A saber por mim, dá insônia, dá incomunicabilidade, dá dor de cabeça, dá poeira mental, dá a impressão de que sou louca. Um depressivo, a outra maníaca. Inteligência demais faz um mal danado - além de causar inveja.
Ai gente, desculpe o desabafo, não sou inteligente porra nenhuma. Se fosse inteligente usaria direito a minha energia.

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Caminhada ou balada? A depender do humor ou da companhia... alguém se manifeste até amanhã, sexta, dia de feira.

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Vcs vão dizer: como cê tá falando mal do marido no próprio lar? A-há, não tô no próprio lar, e sim na LAN House pertinho da minha casa. Desde o ano passado, sei lá, outubro, não vinha aqui. Tá rolando um som legal, samba mixado com algo eletrônico. Não entendo nada de balada então não sei classificar isso. Electro-samba-funk-hip-hop-soul????? Sei que é bom, bonzinho de ouvir e teclar junto no ritmo cadenciado do samba que não é mais samba agora é rap mas enfim é aquela coisa binária, tumtumtumtumtumtum dididi didi didi didi didi didi (didi é mais gostoso de teclar ritmado que tumtutm, até porque tumtum é ternário e não binário, ficam aquelas tercinas que Tom Jobim gostava de botar na sua bossa, tipo, por exemplo, em "chega mais perto moço bonito, chega mais perto meu raio de sol, a minha casa é um escuro deserto, mas com vc ela é cheia de sol... molha a tua boca na tua boca, a minha boca é meu doce é meu sal..." Peraí, isso aqui é uma valsa, valsa-bossa para Gabriela.
Quem mistura o rap com o samba quem é? Sou eu sou eu.
Eu quem? Vou tentar ouvir e conto procês. Alguém mais antenado que eu conhece? Deixe seu comment aí. Acho que tô precisando ir numa balada que toque uma música assim.
Como ia dizendo no post abaixo, no dia em que fui esperar o trânsito na sala UOL, vi o Amp Galaxy e fiquei curiosa. E aí passou. Amanhã tem balada lá, vou ver se Thomas topa. (mas não pode ir largado do jeito que ele gosta de sair, o povo lá é muito fashion-descolete).
Gabi baladeira, cadê vc? Fiquei pensando na sua pequena Vero flautista, ela pode levar a flautinha dela pra gente brincar juntas semana que vem. Pelo menos o bife e algumas musiquinhas a gente pode tocar. De repente, se ela ler bem partitura, dá pra tocar Peterson, como fazia com Ale qdo ela ia pra Tatuí. Eita, Ale, tá aproveitando e mangiando molto na Itália... mangiando molto... e não vai voltar gorda não...

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Ano passado fugi do trânsito saindo da Abril com uma paradinha básica no estacionamento do Pão de Açúcar da Fradique. Comprei um vinho e outras guloseimas - só pra extravagâncias serve o super do Abílio, eta lugarzinho caro danado! - e fui esperar o trânsito diminuir vendo um filme da mostra. Alice Mitika, que me deu aulas de História do Jornalismo, saiu da sessão anterior e entrou na minha: para ver Piano Blues, documentário fantástico sobre os maiores pianistas de blues americanos. Entrou na roda, claro, o canadense Oscar Peterson (as peças de jazz que toquei, comentadas no post abaixo, são dele). Peterson tinha uma pata imensa, aquilo não era mão, era pata, alcançava uma décima aumentada o danado. Midnight Blues, uma obra dele que comecei a ler aos dezessete anos, tinha um monte de décimas menores, maiores e aumentadas. Maior exercício de flexão do polegar opositor - a mão ficava esticada no último grau, e olha que tenho 22 cm de palmo!
Fiquei com vontade de retomá-la. Leila, minha professora, gosta muito dos românticos. Comentei com ela sobre Piano Blues, ela lembrou que contei logo qdo vi o filme em outubro passado, e disse: ah, isso não é pra gente. E eu, é, swing é de negão...
Ela tem raízes árabe e italiana. Mas eu tenho o pé na cozinha. Minha bisa fugiu com um negro forro (ou era escravo ainda?) Então volto sozinha ao Peterson, e à noite. Porque à noite, queira o Thomas ou não, é a hora de tocar blues. Blues e jazz não ornam com o sol.

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Descobri um jeito de ver novela, espairecer, olhar a lua cheia, tomar um coco, tudo isso ao mesmo tempo e sem o Thomas me encher: Fernseh aus! Ele bem que pode ligar a TV pra ver jornal e deixar alto enquanto eu toco piano. Qdo eu quero espairecer, ver novela, qq coisa, tem que ser no mute pra ele ouvir Kiss FM. Sacanagem. Toquei jazz e blues pra ver se ele gostava mais, aí lá pela sexta música, sei lá, não conto tempo nem número quando tô no teclado, lá vem o bordão: "klimpeln aus! Kopf weh!" Sacanagem, parece que toco tão mal que a cabeça dele dói. Fiquei p da vida e gritei: poxa, se fosse um trompete fónfónfón no seu ouvido, tudo bem, mas um pianinho pianinho, tocando jazz, blues pra ver se agradava (qdo é erudito a reclamação vem mais cedo)... aí ele, ah são quase dez, os vizinhos. Os vizinhos nunca reclamaram, a vizinha do 63 toca piano, o do 62 não conheço mas a Catarina do 63 falou que ele tem piano até mas não toca. Enfim, os vizinhos não reclamam, o Tiago, gatinho do 73 até deu uma força pra eu trazer o piano qdo tava aquele quiproquó de não caber o volume todo no elevador - teve de ser todinho desmontado pra subir, parte a parte, e ser reencaixado na minha sala.
Enfim, não contei qual é o jeito de ver novela, espairecer, olhar a lua cheia e tomar um coco, tudo isso ao mesmo tempo e sem o Thomas me encher: indo na banca de frutas da Praça Carlos Gardel. Herr Tünnemann fez terrorismo, perigoso sair sozinha à noite. Que nada, à noite tem night biker, tem menina sozinha vindo da aula, tem moça sozinha voltando da caminhada no parque - foi muito bom deixar o Ibira aberto até a meia-noite. E a lua tá cheia. Amanhã merece uma caminhada noturna no parque. Alguém se habilita? Juro que é seguro. kyq, meu ex-vizinho, sabe disso muito bem. Se aparecer por essas paragens, meu caro, dê sinal de vida.


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2.2.04


Entropia, s.f. quantidade de energia de um sistema, que não pode ser convertida em trabalho mecânico sem comunicação de calor a algum outro corpo, ou sem alteração de volume. A entropia aumenta em todos os processos irreversíveis e fica constante nos reversíveis.
Tá no Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa.
O sociológo Milton Greco opõe à entropia, interpretada como degeneração do sistema, involução, a anatropia, expansão. Impulsos de vida e morte na severinaventura humana.
Pois eu digo, São Paulo tende à entropia, e tende a entropizar seus habitantes. Mas dá pra sair disso, e viver com menos, como se fosse a Amazônia, trabalhando em São Paulo (mas pelamordedeus, não no ritmo paulistano).
É isso o que tenho tentado - e por ora conseguido, felizmente - nos últimos seis meses. Meus rendimentos encolheram 30% mas meu prazer aumentou 100%. Com o horário que eu faço, o almoço que eu faço, o trânsito que eu não pego e a gasolina que eu economizo e o monóxido de carbono que eu não elimino (posso vender créditos de carbono pra uns americanos, hem?) Aula de piano terça às 11, o que significa não trabalhar terça de manhã, porque antes disso estou estudando. E, em breve, começam as aulas na ECA. Para não entropizar de vez meu orçamento, é bom que a bolsa da Capes saia, pelo bem do meu projeto de pesquisa e da minha saúde. Caso contrário, a ética protestante do trabalho vai ter que baixar nesta freguesia.


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