Pat na Amazônia

21.12.04


II. No porto, dezenas de barcos enfeitados com bandeirinhas coalham a margem do rio. Assim iria exclamar, dias mais tarde, o enfermeiro baiano Evandro Pacheco, morador de Parintins desde 2000: Por sorte temos esse riozão, esse rio-mar que nos fornece muito peixe. O bodó? É, o pessoal daqui gosta muito... eu acho esquisito demais, parece um exoesqueleto! Vindo do fundo lodoso, o bodó vai à grelha e impregna o ar, saturado de ondas sonoras: as toadas tocam feito mantras durante todo o festival. Juma, Juma! é o refrão de uma delas.

Gigante Juma
(Demetrios Haidos/Geandro Pantoja)


Um vento soturno soprou
Na serra de Parintins
O canto dos pássaros silenciou

As mariposas não revoaram
As vozes do medo ecoam na mata
É o pesadelo do guerreiro parintintim
Surgindo vertiginosamente em busca de almas
Juma!
O gigante prepara a emboscada
Aos guerreiros perdidos na mata
Sua borduna desfere um golpe mortal
(...)

A Mãe Natureza para resgatá-lo
Invoca Baíra, herói ancestral
Destinando ao gigante guerreiro uma nova missão...
Proteger a Amazônia!
Juma, Juma, gigante criatura das cavernas
Juma, Juma! Seu passo estremece a floresta

- Fogo! Fogo!!! – grita Eduardo Braga, governador do Amazonas.
Por um instante, o fotógrafo Eduardo Svezia pensa que o fogo é ali mesmo, na tribuna de honra do Bumbódromo Amazonino Mendes, inaugurado em 1988 com capacidade para 35 mil pessoas. O governador espera a liberação de recursos federais para a ampliação do Bumbódromo, duplicando sua capacidade até o 40o Festival Folclórico, em junho de 2005. Não. Nesse momento não há espaço para pensar em obras, todas as atenções do corpo e da mente se voltam ao perigo das chamas ardendo.
Do outro lado da arena, Israel Paulaim, apresentador do Garantido, convoca os espectadores para atentar à encenação:
- Juma está furioso! Colocou fogo na floresta!
Ao lado da alegoria de Juma, o gigante da floresta, escultura de 12 metros, uma cobra amarela e vermelha pega fogo. No início da lenda de Juma que se representa, ele é mau, ameaça capturar as almas dos índios durante as caçadas. Só ao final da história, a força de Baíra, deus da natureza, faz Juma se tornar protetor.
Seria então o fogaréu um efeito especial dramático para simbolizar toda a brabeza do Juma? Logo vêm os bombeiros apagar as labaredas. No intervalo após a apresentação, ficou claro, era mesmo um acidente com a cobra, feita de etafon, um material inflamável que não resistiu à proximidade com a forte iluminação – palavras de Bosco Baré, membro da comissão de arte.

(A primeira noite de apresentação do 39o Festival Folclórico de Parintins foi mesmo conturbada. Desde a tarde do 28 de junho de 2004 a apreensão tomava conta de representantes do Caprichoso e do Garantido, pois faltava confirmar os jurados para a primeira noite de contenda entre Caprichoso e Garantido. O espetáculo começou com duas horas de atraso, quando finalmente se reuniu o júri improvisado com personalidades como o fotógrafo Pedro Martinelli e o ator Marcos Frota. Ele vestiu a camisa do Garantido no último dia do festival, o que levou à anulação das notas da primeira noite.)

Fogo controlado, Israel Paulaim continua a narração como se nada tivesse acontecido, ou melhor, como se tudo houvesse passado conforme o previsto. Ele, no papel de apresentador, é o primeiro a entrar na arena. Relata a apresentação das alegorias, das tribos, dos personagens e cria nexos entre momentos fortes, obrigatórios e que valem pontos do júri: ritual indígena – a apoteose da festa – lenda e figura folclórica regional. Esses três momentos carregam força cênica e aportam o tom amazônico à festa da morte e ressurreição do boi, celebrada do Nordeste a Santa Catarina. Deixemos Tony Medeiros, o amo do boi, desfiar seus versos de improviso no 29 de junho de 2004:

Fogos pro boi Garantido
Que acabou de chegar
Fogos pra minha galera
Que outra mais linda não há
Fogos pra minha Amazônia
Onde meu boi vai brincar
Preste atenção nesse fato
Que agora vou recordar
É uma história antiga
Do auto do boi bumbá



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17.12.04


Na ilha do boi de pano

I.
A paisagem desliza com vagar no horizonte líquido: dezoito horas rio abaixo, de Manaus a Parintins (serão vinte e oito na volta). Fim de tarde no rio Negro, o Príncipe do Amazonas deixa o porto de Manaus e pára poucos minutos adiante, para a fiscalização da capitania. Os cuidados são rígidos nessa época de alto fluxo ao Festival Folclórico de Parintins. Todos os passageiros descem do barco, se houver um além dos 250 permitidos, meia-volta para a cidade. Isso não acontece, mas a parada impede a vista de um pôr-do-sol no encontro das águas. O breu do céu envolve o barrento Amazonas e não mais se vê sua cor. Só os sons das toadas do Caprichoso a tocar pela noite no bar, instalado no terceiro convés do barco. (Mais tarde viria saber que o dono do Príncipe do Amazonas torce pelo boi azul e branco, daí a seleção musical).Vermelhas, amarelas, verdes, azuis, brancas, lisas ou estampadas, as duas centenas de redes se enfileiram pelos conveses. O dia amanhece e o horizonte aquático se alarga enquanto o sol sobe pelo céu. “O ar é puro, o horizonte, relativamente vasto para estas regiões, é claro e sereno, o calor é quase diariamente atenuado por fresca viração, que sopra rio acima, e a praga dos mosquitos não flagela demais”, escreveram Spix e Martius em 1819 um relato que não perdeu a validade 185 anos depois. Vem chegando Parintins, reconhecível ao longe pela bandeira vermelha na Cidade Garantido, de 3 mil metros quadrados – o curral de 2 mil metros quadrados do Caprichoso fica distante do rio e não se vê do barco – e, um pouco abaixo no curso do Amazonas, aponta a torre da catedral de Nossa Senhora do Carmo. Esta, alinhada ao Bumbódromo, forma o território neutro da cidade, que se divide em duas bandas: a leste o território azul do Caprichoso, touro negro com estrela na testa; a oeste o lado vermelho do Garantido, boi branco de coração na testa. Até as placas de trânsito respeitam as cores dos bumbás.

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Um gamer australiano, conhecido pelo nick Deathifier, arrebatou em um leilão uma ilha virtual por 26,5 mil dólares. Está no BBC news online. O negócio foi feito pelo Entropia, um sistema onde se converte dinheiro real por moeda fictícia e com ela compram-se objetos para o universo RPG - role playing games, mania que conheço há uma década (naquele tempo os jogos eram ao vivo, porque ninguém sonhava com a internet de hoje).
Parece que o australiano vai lucrar com o investimento, já colocou terrenos à venda na ilha virtual e irá cobrar de quem quiser "visitá-la" ou caçar tesouros por lá.
Ilhas exercem mesmo uma atração mágica sobre as pessoas. Há um punhado de meses, o escritor cubano Ronaldo Montero me sugeriu escrever uma ficção sobre um paulistano que viaja para uma ilha isolada e se desola. Parece que agora, com essa compra, tenho o gancho perfeito para minha história. Prometo postar algo sobre (não esqueci da promessa de posts sobre Parintins, vão a seguir já-já).


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15.12.04


Conta comigo

Essa música que vou transcrever, cantada pela cristalina voz de soprano da Tereza Salgueiro, me emociona demais:

Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento ó meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo já esqueci
Por que fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor
Eu sei quem és pra mim
Haja o que houver
Espero por ti

Eu sei, eu sei
Quem és pra mim
Haja o que houver
Espero por ti

Eu sei, e sempre soube, quem és pra mim. Talvez às vezes esqueça, e então me esqueço de mim, mas logo passa. Já muito esperei por ti, agora esperas por mim e eu aqui. Voltaste no vento sudoeste, não tão depressa, mas cá estás e ao que parece para fincar raízes. Que a brisa leste sempre te-me afague e o sol sereno da manhã azul amém.


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13.12.04


Curioso foi romper o silêncio falando em Brecheret. Na sexta 10, dois dias depois da minha reaparição neste blog, surgiu uma âncora no puxa-empurra. Obra do artista Eduardo Srur, conforme deu na Folha sábado. A repórter ouviu o filho de Brecheret, que "não se indignou". Nem era o caso: a obra, e a recente intervenção, deveriam chamar reflexões que passaram ao largo do periódico. O que significa ancorar um batel em frente ao Ibirapuera? Barrar as bandeiras, mudar o curso da História? Dizer que foi em vão o esforço daqueles escravos, bugres, índios, mamelucos, cafuzos? Que puxavam e empurravam algo que não poderia sair do lugar? Acho que esse tipo de questionamento leva ao que a professora Kátia Abud mencionou no II Seminário Ciência e Sociedade, quinta-feira na Estação Ciência: a cobertura jornalística sobre patrimônio afasta o homem como sujeito da história. Essa intervenção contemporânea de Eduardo Srur no Monumento às Bandeiras deveria abrir muitas discussões entre historiadores, sociólogos, artistas, educadores e a "sociedade em geral" sobre quem avança e o que barra na nossa história. Alguém viu isso na imprensa?


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8.12.04


Depois de um longuíssimo silêncio, volto a esta página para contar:
1. ontem entreguei meu primeiro relatório de atividades, do qual consta a narrativa Na ilha do boi de pano, sobre a viagem que fiz a Parintins entre junho e julho deste ano (alguns parcos posts no arquivo flagram cenas daquele período). Prometo publicar aqui alguns trechos... em breve...
2. hoje, ao voltar da minha recém-retomada caminhada ao Ibirapuera, deitei olhos sobre algo que antes só me passava de relance: o mapa do Brasil em baixo-relevo sob as patas dos primeiros cavalos no "puxa-empurra" do Brecheret. Ali sabemos que Antônio Raposo Tavares saiu das paragens sãopaulistas, atravessou Andes e desceu o Vale do Amazonas. Não estudei longamente a figura, mas parece o mais peregrino dos bandeirantes. Quantos índios terão morrido durante sua jornada?


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