Pat na Amazônia

25.6.03


No curral do Garantido

Que surpresa, que beleza.
A batucada chega marcial, enfileirada, e se dispõe no palco feito orquestra percussiva. (No Bumbódromo, 350 percussionistas compõem a Batucada Vermelha e Branca, da qual ganhei camiseta exclusiva, babem!). No palco do curral temos uma formação filarmônica: embaixo, à esquerda, as palminhas batem agudos teco-teleco, teço-telecoteco em pequenos pedaços de madeira aos pares – tamancos portugueses? Ao lado os chocalhos metálicos, acima caixas, ao centro os tambores dum-durum, africanos sim senhor.
Desfilam os ritmos, após a abertura marcial, entre o baião, o samba-pagode, o reggae, o aboio e o repente setessílabo, evidenciando a raiz nordestina e cosmopolita. O boi, bem disse Câmara Cascudo, é o auto mais brasileiro que há. Representa a morte e ressurreição de um boi, eleva ao imaginário internacional a vida do caboclo e do sertanejo (e do peão sulino também, pois tem boi até em Santa Catarina!). Ora patrocinada por multinacionais e movimentando milhões a Ilha Tupinambarana de Parintins, a festa do boi alforria a dura lida no campo. Quem disse que caboclo não trabalha, que índio é preguiçoso? Oh sulistas, tão achando que aqueles tríceps, bíceps, deltóides, quadríceps e abdômenes foram torneados na academia? Vir pra cá é ver que eu preciso voltar a puxar uns pesos... não consigo abrir portão, que dilata nesse calor que as nove já parece meio-dia... Voltemos ao curral:
Às vezes as coreografias entoam o mesmo sotaque do ritmo batucado, e quando não a harmonia se mantém e mais, celebra um Brasil de misturas.
O Boi de Parintins é uma ópera amazônica, tal como também devem ser os Pássaros paraenses. Lindo ver como as alas, quero dizer, tribos, às vezes frente a frente, às vezes dispostas em U, interagem com o centro aberto às alegorias (que não vi, mistério guardado para a apresentação). A sinhazinha da fazenda faceira de corpo feição porte e carisma, altiva em movimentos, firme e sinuosa, cintura e quadril bem desenhados e barriga durinha mas não seca feito as capas da Boa Forma. A moça, sinhazinha, poderia esbanjar sensualidade mas se contém, seu mote é altivez. Nota dez ela merece, a ver o que diz o júri.
A rainha do folclore se apagou depois da sinhazinha. Mais modelável, magrinha, menos índice de gordura corporal em mesma proporção ao menor carisma. Não quero dizer que as magras são menos carismáticas, era só o caso dessa mocinha em questão.
A porta-estandarte não sei o que dizer, o moço do hotel disse que não vai ser assim como vi quando ela carregar quilos de fantasia no corpo, mas a menina pulava que nem uma guariba, saltitante em demasia, talvez quisesse mostrar empolgação porém o estandarte me remete a respeito e postura sempre ereta. Deixar a bandeira em diagonal, nunca, deitá-la, heresia. Pois a moçoila tratava o estandarte como saia de carimbo, imagino. Qual será a nota dela? Espero que o júri seja menos rigoroso que eu. Estou torcendo pelo penta do Garantido, as toadas ricas em biodiversidade cultural. Mãe, mãe Natureza é o refrão chiclete de uma toada que canta a preservação de Januari e da Reserva Mamirauá, próximo a Tefé, esses santuários ecológicos que constam da minha lista (Thomas assina embaixo) de monumentos naturais a conhecer. No próximo ano ele quer ir pra São Gabriel da Cachoeira, e insiste em descer de barco. Vou demovê-lo da idéia, ou ele mesmo se demove depois do segundo dia de viagem (são cinco no total, parece). A não ser que a gente consiga um barco bem confortável só pra nós... ou camarote... mas o legal desses longos trajetos é parar no caminho, aí a viagem de cinco vira vinte dias. Oba! Quem vai financiar? Projeto, projeto, pauta, pauta!
Chega de digressão, volta, Patrícia, pro curral do Garantido.
A voz de Davi Assayag enxerga tudo com o terceiro olho – os outros dois nem não, exagero pra quem vê tudo pela garganta, pelo coração, pelos poros, pelos ouvidos, pelo cérebro tão sensitivo. Fiquei curiosa em saber se o entoador é cego de nascença, e logo lembrei o ótimo documentário Janela da Alma. A produção ia gostar de entrevistá-lo, assim como eu.
Como bons regentes de bandas sinfônicas, o chefe da batucada marca tempo, afrouxa, acelera, cria dinâmicas, volumes, relevos, timbres, que o puxador também ordena aos bailarinos. Divididos em grupos, executam duas coreografias distintas, simultaneamente. Impressiona o efeito plástico e dá pra entender porque aqui não adianta pagar 600 contos pra “desfilar” numa “ala” do Bumbódromo. Pra entrar na tribo precisa ser da comunidade, ensaiar três vezes por semana durante dois meses, se faltar um dia não pode mais ir pra arena. Apesar de os passos, isoladamente, apresentarem relativa facilidade, tanto que usados em aulas de aeroboi nas academias manauaras, difícil demais decorar as seqüências e alternâncias de coreografias. Só pra quem mora, ou melhor, vive Parintins, traz no DNA e no coração que enfeita o terceiro olho do Garantido (ou na estrela da testa do Caprichoso, justiça seja feita ao projeto de educação ambiental selecionado pelo ProVárzea). Falar da simbologia dos bois dá pano pra outros bois...
Emoção de arrepiar a espinha reverbera essa ópera eruditíssima, patrocinada pela Coca-Cola e concorrida pelos freqüentadores da Ilha de Caras (menos, este ano, com transmissão do SBT prevê-se menos globais por centímetro quadrado nos camarotes, mas Lula estará lá...)
Em um verso de toada ouvi um estranho guaraná Cecé. Não existe essa marca, só Magistral, Real, Tuchaua,... e Baré, marca regional comprada pela Antarctica. Talvez a (auto)censura vetou a rima com a concorrência, já que Kuat patrocinador é rima difícil. Só rima com Kuait, mas a guerra nesse ano era do Iraquye e os temas do Garantido não são atuais como os de escola de samba carioca. São ancestrais, cantam as lendas, a vida do caboclo, a vida real representada na pesca, na extração da borracha, na produção de farinha de mandioca espremida no tipiti indígena.
Aqui se canta e dança com apuro plástico, musical, cênico, simbólico, repleto de polifonias, polirritmias, polissemias. E pensar que tudo começou com Lindolfo Monteverde, que garantiu a São João um boi em troca da cura de uma doença. Dissidiu do Caprichoso e fundou o Garantido. Foi homenageado no Festival 2002, quando o Boi Vermelho e Branco conquistou o tetra. Este é o ano do penta, e já vejo Lindolfo batendo um papo pessoalmente com São João e São Pedro pra mandar tudo de bom pros garantidos...


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23.6.03


os dias em Silves foram deliciosos, com muito suco de fruta - buriti, cupu, maracujá, goiaba, camu-camu - e o inesquecível creme de marimari (uma vagem que lembra o ingá e esconde sementes em forma de moeda com polpa que lembra algo entre kiwi, banana e algum gosto de infância). Escrevi um par de parágrafos sobre a pousada Aldeia dos Lagos , um projeto de turismo comunitário apoiado pelo WWF. Dentro de um ou dois dias, espero, o texto deve ir pro ar no site de Casa Claudia.
Sair de Silves só abre duas opções: voltar para Itacoatiara e Manaus (rota do Thomas) ou seguir para Urucará (minha). Cheguei lá no começo da noite de sábado e ontem às 19h tomei o motor pra Parintins - com chegada em hora um tanto desagradável, 3 da manhã. Preciso descobrir os horários do barco pra Santarém.
Por agora meus escritos de 22 de junho, domingo, às 22h30 hora de Manaus (23h30 hora de Brasília):

- Tu já jantaste?
Havia desistido de corrigir todos os que me tratavam por senhora: crianças, jovens mais jovens ou de idades próximas à minha e até pessoas mais velhas, pouco ou muito, que eu. Na pousada, no bar, no restaurante, no expresso, no motor (na troca de palavras com o tripulante Chico Preto, que me ajudou a amarrar a rede), era "a senhora" praqui, "a senhora" prali...
No motor, os passageiros postos lado a lado formam uma communitas efêmera. A proximidade dos corpos embalados nas redes tão uterinas, faz de nós embriões múltiplos no grande útero aquático. Vão 14 redes no pequeno motor Yasmin , de 17 metros (mesmo tamanho do Educador). A única lâmpada acesa no momento está justo sobre a minha rede. Não tem jeito chegar cedo, alguém já botou a rede no melhor lugar. E é tão difícil escolher o melhor lugar, mais difícil que achar a melhor poltrona em classe econômica nos vôos transcontinentais. Muito à proa do barco, venta mais e se chover é um frio inimaginável para latitudes tão baixas. Muito à popa, o motor boromboromboromborom todo o tempo vibrando no convés aos meus pés. Taí a disjunção amazônica. Se na Alemanha entweder grau oder kalt, aqui
Ou proa ventobrrrrrrr ou popa motorboromborom.
Pensando bem foi uma bênção essa luz acesa aqui em cima da minha rede. Se eu estivesse na proa ia escrever às escuras (depois fui lá, ver estrelas e ouvir histórias de timoneiro). Mas voltemos ao mote que iniciou este contar:
- Tu já jantaste?
Quem perguntou foi dona Cândida, vizinha de rede, mais à popa, no motor. Aqui, como na Europa continental, existe a diferenciação entre tu e a senhora/o senhor, tu y usted, du und Sie. Pessoas da mesma família e círculo íntimo se tratam por tu. Os ibéricos jovens se dirigem aos velhos formalmente, o que não acontece entre os germânicos (até Deus é tu pra eles!). Então ficou a dúvida: dona Cândida (bem queria chamá-la Candinha) me tratou por tu devido a minha pouca idade em relação à dela, oitenta, ou por sermos da mesma communitas, quase gêmeas de viagem?
À pergunta de dona Cândida que motivou este contar respondi, não, obrigada, já tomei tacacá e suco de cupuaçu e sanduíche. No que disse pensei, quantas calorias, tomara que queime suando, e andando e nadando certamente. Dona Candinha nem notou meus pensamentos e insistiu:
- Bora comer carimbé?
- Que é isso?
- Farinha com pimenta - murupi, aquela amarela, cheirosa e fogosa que só ela.
Tinha também dois ovos pra reforçar a refeição.
Obrigada, dona Candinha, e vá com Deus. E sorte pro Garantido!


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17.6.03


Tá com sede? Toma água Yara, guaraná Baré, Magistral, Real, Tuchaua (no desembarque internacional tem maquininha com a versão light!) Toma suco de taperebá, o cajá do nordeste aqui miniaturizado, cupu, camu-camu - este não provei ainda.
Até mais, no próximo não-espaço, com contares de outras paragens...

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À noite o centro manauara morre. Um ou outro guardião das barracas de camelô assiste à tevê ligada na gambiarra. E o lixo se empilha em morrinhos de até um metro. Coleta seletiva? acredito mais na boiúna. Aliás, se a cabeça dela pousa mesmo sob o Teatro Amazonas, há de estar deveras intoxicada com tanta sujeira e sentindo saudades do tempo em que se comia mais pupunha do que salgadinho industrial.
À noite o centro manauara morre, está morrendo agora mesmo, quase seis da tarde (não consegui acertar o fuso no settings!). Fala-se em revitalização do porto mas corre à boca pequena que a quadra de fachadas históricas pode virar estacionamento. Ou seja, o espaço corre o risco de se tornar um não-espaço, como são portos, aeroportos e rodoviárias, aqueles lugares onde menos tomamos o pulso local, onde não podemos perceber o DNA da paragem.
Um minuto de silêncio e uma ave-maria. Dorme boiúna, o centro manauara morre.

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No traslado do aeroporto para o hotel, o motorista logo justifica o acanhamento da rodoviária:
- Ela é pequena assim porque a maior parte do transporte é pelos rios.
De fato, a malha rodoviária a partir de Manaus se resume em três direções: Boa Vista, Porto Velho, também alcançável por via fluvial, e Itacoatiara.
O porto, que vemos da janela do Ana Cássia (único hotel com piscina no centro, e os preços são razoáveis), deixa bem clara a supremacia hidroviária. Há o embarque nacional e internacional, este com lojas de artesanato pra gringo, cheiros amazônicos em belas embalagens, design de qualidade com produtos da floresta e joalheria. Feito um aeroporto, com ar condicionado no último.
No embarque nacional, vemos os seguintes menus nas lanchonetes:
suco de cupuaçu, taperebá e acerola
x-tucumã (outro must-eat)
x-caboclinho. Este me chamou a atenção, é x-tucumã com banana. Mas no centro vi x-caboquinho, uma variação da receita. O caboquinho misto traz o clássico queijo com presunto acrescido do coco amarelo da tucumã, fibroso e cheio de proteínas e lipídios vegetais. Pura energia.

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acertemos o fuso, aqui estamos uma hora antes de Brasília...

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Ao primeiro relatório de viagem:
Hoje choveu e está fresquinho, portanto posso dizer que estou na "Paris dos Trópicos". Recém-chegada do encontro das águas (achei que ia ser mico mas vi preguiça domesticada com seu filhote. Sério, foi interessante, especialmente a volta pelos igapós), acabo de tomar um mix de sorvetes de açaí, tucumã, cupuaçu e castanha. Este não deixa nada a desejar diante da macadâmia Haagen-Dazs. E custou bem menos: dois e vinte por 160g de delícias na Glacial, uma sorveteria que é must-go de Manaus.
Domingo trabalhei com o Marcos Lima. Thomas curtiu passeio de canoa motorizada até a Ponta Negra e de volta ao Tarumã e Igarapé do Mariano, com seus meandros pontuados por confortáveis casas de recreio. Missão cumprida, caí nágua e posso dizer que atravessei o primeiro igarapé - este media só uns cem metros, de água negra e tranquila. Estava com Thomas junto, viu, mãe? Ele ficou quase o dia todo nadando, curtiu muito.
Ontem foi duro o trampo sob o sol, dá uma leseira danada. À noite visitamos o Teatro Amazonas da melhor maneira: durante um concerto, no caso da Orquestra de Violões.
Amanhã pegamos ônibus pra Itacoatiara (cerca de 4h de viagem) e de lá seguimos com o expresso pra Silves. O expresso em questão é uma lancha, que faz o trecho em 1h30. Thomas está pensando em voltar de barco, se fizer isso vai encarar um dia todo no Amazonas, rio acima.


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6.6.03


Monumento às Bandeiras, São Paulo, 11h48.
Um homem se esconde à sombra de uma placa de papelão. Nela os dizeres: Vendo rim O+ 70 mil tratar aqui. Pauta pro Circo do Absurdo, mas o Palhaço tá na Tríplice Fronteira...
Fiz a curva pensando de onde viria a cotação - da necessidade do homem. Virei à direita e pedi pro cérebro mudar de assunto, porque se continuasse nesse ia queimar muitos neurônios, e afinal quanto eles me valem? milhões de vezes as batidas do meu coração ao longo da minha vida, que espero longa.
Ora falemos de "animosidades" - meu pai quer dizer "amenidades" com essa paronímia engraçadinha.
Lisboa, 1998, um anúncio bem mais leve que o tal cartaz sob o sol dos bandeirantes diz:
VENDO O CORPO
de uma câmara fotográfica.

Moral da história:
Necessidades humanas fazem a venda de objetos desumanos.
Necessidades desumanas fazem a venda de órgãos humanos.

Que Deus proteja nossos corpos e almas.


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4.6.03


Chaves meteorológicas

[inverno 2002, Berlim:
entweder grau oder kalt
(ou cinza ou frio)]

[inverno 2003, São Paulo:
entweder blau oder luft
(ou azul ou ar)]

[os invernos amazônicos abolem disjunções: cinza e água e aragens frescas noturnas.]

A miss sérvia não quer falar em sua língua nem sabe escolher entre fogo e água. Eu voto nesta última, pois dela surge a vida. Antes dela o fogo primordial, sem dúvida, mas a água é o princípio do cosmos orgânico. Miss Sérvia acha que fogo e água não têm sentimentos, santa inocência. Todos estamos cansados de saber que o sentimento da água é o céu e o sentimento do fogo é o ar. O sentimento da água é espraiado e o sentimento do fogo consumido. A água fêmea o fogo macho.

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Mais um saído do baú... gosto de reler, rever

Paris por olhos alheios

Enquanto sorve o líquido amarelo adocicado e se diverte com as bolhas em sua língua, corre o dedo pela borda dentada do seletor de canais. Ouve a música, não presta; gira outra vez, mais um estalido no seletor. Tenta tanto até perceber, dói o polegar, congestionado e vermelho. Ah, se existisse o crio-sono de Perdidos no Espaço... Definitivamente, seu estágio, especialmente em aeronaves, se encaixa no dos entediados. Você ultrapassou a curiosidade ansiosa dos viajantes inexperientes, por isso dispensa a janela. Pra quê? pra ver azul, azul e mais azul recortado num retângulo minúsculo de bordas arredondadas? Pra receber a luz refratada duas vezes por películas de policarbonato? Aqui de cima não se vê a Torre Eiffel. Não, você prefere sentar junto ao corredor, até porque aquele remédio pra pressão alta aumenta as idas ao banheiro. Além disso, você gosta de dar suas voltinhas e alongar os músculos, pois dormir mesmo não dá. Bem que já tentou tomar um porre de vinho num vôo da Lineas Aereas Paraguayas; não pregou o olho e só conseguiu uma bruta ressaca no dia seguinte. Inveja aquela loirinha e seu namorado duas fileiras atrás, os olhinhos azuis dela faíscam refletidos na janela. Olha só que linda a paisagem, amor! Não, não mesmo, mal sabe ela as doze horas que a esperam, isso se não bater o nordeste e aumentar o tempo de vôo. Pensando bem, a inveja passou. Bom mesmo é sentar no corredor junto à saída de emergência, aí onde você está. Isso na classe econômica, porque bom, muito bom mesmo é viajar de primeira classe. Você ainda não chegou lá, mas está a caminho. Não, você está a caminho de Paris, cidade com que sonhou desde os treze e só vai conhecer agora, trintecinco anos nas costas. Mesmo tomando pela primeira vez o avião com destino ao Charles de Gaulle, você sabe, Paris não se mostra inédita a ninguém; portanto, não chegará ali pela primeira vez, muito menos pela última. Ninguém encara a cidade com olhos virgens; além disso (talvez por isso), voltar se torna inexorável.
Na Place de la Concorde, junto ao fálico obelisco egípcio alinhado ao Louvre e ao Arco do Triunfo e à La Defense onde a vista não alcança, você beijará sua mulher. Todos os lábios se encontram na Place de la Concorde. Você viu isso em Sinfonia de Paris, Gene Kelly sapateando nas nuvens à inesquecível música do Gershwin; e também em Todos dizem eu te amo, de Woody Allen. Você só lembrará isso bem depois, concluindo que não sem propósito beijara Leda ali. Talvez sejam as emanações do obelisco alinhado com o arco, sem esquecer o rio ao largo, que lá é feminino, la Seine. Assim como o mar, La mer, Debussy.
Eis o que você ouve e a loirinha vê trinta mil pés abaixo dos seus, o azul infinito do Atlântico mesclado com o céu, horizonte na estratosfera não há. Termina o Debussy. Mais um estalido na roda dentada: Brandeburgo 5. Quando for a Berlim, você vai procurar a Porta de Brandeburgo sem entender nada, pois a porta veio muito depois de Bach. Em seguida, uma violoncelista coreana postada em sua frente na fila de ingressos para a filarmônica esclarecerá o mistério: Brandeburgo não passa de um topônimo, região de bosques (e neonazis, descobrirá mais tarde) nos arredores da capital alemã. Enlevado pelo presságio entrevisto nos acordes, sente a boca secar. A aeromoça se aproxima e você pede guaraná com gelo e laranja. Sem semente, por favor. Você sofre uma baita paúra de engolir caroços – o mito infantil quase virou dogma, vai que as sementes se alojam nas paredes gástricas e formam raízes? Levando em consideração as hipóteses científicas, não custa dar moleza pras suas úlceras. Quem já tem cinco deve se cuidar. O guaraná exibe a mesma cor da fachada da filarmônica, o mesmo brilho dourado. A curva do copo plástico faz lembrar as formas da fachada metálica; o sol bate na janela de policarbonato e arde nos olhos. Vai ao banheiro, tira os óculos, passa uma água no rosto ressecado. É manhã, mas ainda falta muito para chegar. Travessia interminável essa. Enquanto o computador de bordo mostra a rota, a altitude e a velocidade de cruzeiro, você refaz o itinerário, costurado a partir de viagens alheias. Pensamentos bombardeiam sua cabeça sempre cheia de idéias. Um deles, porém, martela em baixo contínuo: gosto de olhar com os meus olhos aquilo que outros olharam com os seus. Os lugares não permanecem, mudam e mostram nuances diferentes na lembrança de cada um.
Você vai repetir, como um rito, os passos que amigos, conhecidos e desconhecidos traçaram pela cidade. Jantar naquele bistrô de 150 anos com piso gasto de ladrilho hidráulico e vinho da casa servido em jarras de vidro decorado com motivos art-nouveau. A falta de privacidade das mesas compartilhadas com estranhos (coisa tão européia) não faz o lugar menos especial. Além do mais, você estará sozinho. Recorda um espaço oposto ao ambiente comunitário deste bistrô, o café da cordilheira onde telas de madeira separam as mesas. Sente saudades: de Leda ou da lembrança? Você desconfia que procura se apaixonar só para possuir lugares, lugares e lembranças. Não importa. Você, neste momento, quer estar com sua mulher e pedir crème de lentilles blondes avec confit du canard e, na sobremesa, tarte aux mirtilles. Ela ficaria impressionada, crendo ser você o autor da escolha. Ledo engano, Leda. A trilha continua: daqui em diante, a missão consistirá em subir os degraus para o Sacre-Coeur. Apesar da manhã cinza e chuvosa, a fachada reluz impecavelmente branca. O mesmo branco puríssimo a igreja mostrará sob um céu límpido e azul, atravessado pela luz oblíqua do inverno. Lá dentro, resguardado do tempo, você vai buscar, como um tesouro, um banco em uma das últimas fileiras. Ali, dois amantes consagraram seus corações, muito tempo atrás. Eles também jantaram no bistrô de 150 anos, indicado por uma terceira pessoa. Você, por estranha coincidência ou por profundo conhecimento da história, senta-se à mesma mesa do bistrô, de costas para a rua, e ao mesmo banco da igreja neo-romântica, do lado direito da nave. Na saída, vai tragar numa golfada o ar fresco da manhã, que cobre como uma abóbada as ruas de Montmartre. Descer de escada ou de funicular? O roteiro não indicara e você resolve por si, enquanto se prepara para encontrar as gárgulas, aqueles seres estranhos que por tantos anos povoaram seus sonhos suados. Serão elas como você imaginou?
Na pequena tela do vídeo, um breve filme sobre as atrações turísticas mostra a igreja mas não o que nela mais importa, as misteriosas estátuas. Cerra os olhos e antevê a hora exata do encontro ofegante após a escalada. Você as encara e, para além do inefável silêncio da torre, ouve as palavras lidas de alguém que nunca sonhou com gárgulas, mas depois que as viu, jamais as esqueceu. Assim como o som dramático do órgão de tubos reverbera no interior da catedral, aquelas palavras ecoam entre as paredes do crânio: a única frase que ela captou nas andanças pelas igrejas de Paris foi a exclamação, quase decepcionada, duns meninos em excursão ao topo da Notre-Dame: les gargules sont pigeons! As gárgulas são pombos, elefantes, cegonhas, corvos, leões, águias, touros, homens e as mais fantásticas criaturas de pedra já vistas. Que miran las gárgulas!, espantou-se una rubia chica argentina. Não há como dizer, é de tirar o fôlego, depois de subir quatrocentos degraus em curva estreita, coração disparado, ver aquelas expressões de horror, de guarda, de observação tranquila. Todos se encantam com a gárgula de asas de anjo e chifres recém-nascidos de cabra e grandes orelhas, mãos compridas apoiadas no queixo, debruçada a olhar o Sena em direção a Montparnasse. Todo mundo encontra sua gárgula. A da chica rubia era a gárgula-leão. Ela abraçava a estátua, feliz e talvez inconscientemente agradecida. Em sua vigília eterna, as gárgulas olham pelas pessoas lá embaixo, tão pequenas no seu ir e vir apressado. Agora chega, volto à terra, pequena no meu ir e vir apressado, mas tranquila porque sei que as gárgulas olham por mim.
Café, suco, chá? A aeromoça lhe desperta do breve devaneio. Só mais tarde, digestão feita, entenderia tudo a ponto de o sonho ganhar sentido. Segue o roteiro alheio e ainda assim faz uma viagem só sua. Tornar seus os lugares dos outros. Você se emociona ao reconhecer a sua gárgula (a dela e a sua própria), a da chica rubia e a de muitas outras pessoas. Você passa horas a mirar os vitrais de Saint-Chapelle, cada ogiva com um livro da Bíblia. Deita os olhos sobre os sete sacramentos de St. Severin; e lhe encanta a Virgem sobre o planeta com um manto de água que lhe cai dos ombros no altar de St. Sulpice enquanto os fiéis cantam o pai-nosso (em francês, bien sûr). E também vai ouvir o coral da Madeleine, onde Chopin foi enterrado ao som do prelúdio em mi menor; e fará o trajeto inverso do cortejo indo de lá à Place Vendôme: ali o Lagerfeld aparece de relance, em plenas vizinhanças do Chopin. Você vai comer escargots rezando para o aroma da manteiga com ervas durar para todo o sempre amém. Desliza a língua pelo céu da boca como querendo preservar esse sabor para a eternidade. Um sabor que ainda nem lhe chegou ao paladar, mas já lhe atravessa o cérebro. Cerra as pálpebras, inspira e sente o aroma fresco dos lírios no jardim de Rodin e o cheiro quente das baguettes vindas dos fornos das boulangeries do Marais. Espicha a mão e sente o mármore da virgem de St. Sulpice, translúcido e frio como seus dedos longos e frágeis. Mantém o mais profundo silêncio e ouve, entre as batidas do coração, o toc-toc dos saltos na Rue de Faubourg de St. Honoré. Abre os olhos e um som agudo rasga seus tímpanos. Um baque surdo de borracha sobre o asfalto, depois o segundo. Neste segundo, chegou a hora de ver Paris, por si e pelos outros. Ao fim da viagem, você vai lembrar os passos de Paris, histórias de pessoas que lhe acompanharam como fantasmas e lhe guiaram como as gárgulas de Notre-Dame. Vai contar as histórias que se cruzaram nas esquinas de Paris, e decantar os lugares emprestados e possuídos para quem quer que ouça; pois, se não podemos levar o outro fisicamente, transportamos a nós todos pela palavra. E quanto mais ela se multiplica, cada vez mais gente cabe no mesmo lugar especial, contrariando aquele princípio cientificista de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Somente desafivele os cintos após a completa parada dos motores, recomenda o comissário. Você obedece, exausto de tantos pensamentos atropelados. Agora que chegou a Paris, só deseja dormir, dormir e nem lembrar o sonho. Esvaziar a mente para acordar e ver a cidade como nunca – com seus próprios olhos. E, depois da jornada, não querer possuir um lugar que é tão seu como de todos.


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